Um esbarrão e lá se foi o dinheiro da aposentadoria
Walter Ogama
O filho de uma vizinha já havia comentado sobre a forma como os ladrões agiam nos dias de pagamento da aposentadoria. O rapaz havia lido em uma página da Internet: um ladrão ficava dentro da agência bancária, fazendo de conta que era um cliente mas trabalhando como um olheiro. Ao perceber que um idoso sacava uma quantia razoável no caixa, esse olheiro tratava de encontrar um jeito de esbarrar no idoso.
Perdão, senhor. Mil desculpas.
Normalmente bem vestido, o olheiro havia marcado a vítima. Possivelmente ele havia colado nas costas do idoso um adesivo discreto, mas suficiente
para o comparsa, postado do lado de fora do banco, perceber.
O golpe era finalizado na saída da agência, com outro esbarrão no idoso, dessa vez provocado pelo assaltante que aguardava praticamente na porta do estabelecimento, também normalmente bem vestido e com jeito de ser uma pessoa bastante educada.
Meu Deus, onde é que eu estou com a cabeça? Desculpa senhor. É que eu estava caminhando distraído. Não machuquei o senhor?
Não, foi só uma trombada. Isso acontece...
Desculpa. Tenho que andar com mais atenção. Até logo e mil desculpas. Só minutos depois o idoso, naquele gesto mecânico de apalpar a coxa para sentir o dinheiro no bolso, perceberia que havia sido assaltado.
Mas Fidélis jamais imaginaria que ele seria vítima de um golpe desses. Costumava comentar com os amigos, com ar de esperteza:
Comigo não. Encostou eu já arrepio. Conheço essa molecada que anda assaltando as pessoas. Não deixo nem chegar perto, já vou mandando embora.
De fato. Fidélis, quando jovem, havia sido cobrador de uma empresa em São Paulo. Só depois veio a Londrina, onde se estabeleceu como um pequeno comerciante. Contava vantagens, principalmente por ter morado em São Paulo quando a maioria dos amigos era procedente de pequenas cidades do Norte do Paraná, normalmente vindos da zona rural.
Aos comentários sobre a violência em Londrina, respondia com ar de autoridade:
Isso aqui é o paraíso. Sujeito, aqui em Londrina, precisa saber como anda e por onde anda. Não precisa de mais. Vai andar com um baita relojão brilhante no pulso para ver o que acontece. Igual os meninos da vizinhança.
Pedem para o pai comprar tênis importado e de marca, vão passear e voltam descalços.
Mas, velho! As coisas estão mudando. Não é mais como antigamente. Essa história da Internet que o rapaz vizinho contou é verdade. Tem gente especializada em assaltar.
Primeiro porque Internet é bobagem. É só história. Pra mim a vida está aqui fora e não dentro do computador. Que nada. Quando vocês forem pra São Paulo vão sentir a diferença. Lá o sujeito tem que andar de lado, encostado na parede e sem nada nas mãos.
Discurso. Bem que Fidélis tomava as suas precauções quando deixava o bar aos cuidados de uma filha para ir a cidade. Principalmente naqueles dias, os do pagamento da aposentadoria.
Fidélis não andava de lado, encostado na parede. Mas guardava o relógio automático, daqueles de dar corda com o movimento do braço, no bolsinho da calça social larga. Sempre levava uma pasta elástica, recheada com jornais dobrados, colocando por cima alguns trocados. Era uma estratégia: Assim pensam que carrego o dinheiro na pasta. Na volta, ainda dentro da agência bancária, dividia o dinheiro sacado em quatro partes iguais: uma era guardada no bolsa esquerdo da frente, outra no bolso direito da frente, outra no traseiro esquerdo e outra no traseiro direito. Nunca amarrava nenhuma das parte com elástico: Porque se me pegam o maço amarrado, levam tudo. Deixo solto dentro dos bolsos.
Essa tática ele havia aprendido em São Paulo, na época do serviço de cobrador. Além dos familiares, nem amigo do peito sabia disso. Magro, altura média, aparentando seus 50 anos quando já acumulava quase 60, Fidélis nem fazia questão de roupa de usar na missa para ir a cidade.
Vestia peças que usava no cotidiano, atrás do balcão. A única diferença era a camisa de manga comprida criteriosamente colocada por dentro das calças e com as mangas alinhadamente arregaçadas. Normalmente ele usava camisa solta.
Naquela quinta-feira não havia fila no caixa do banco reservado para atender idosos, gestantes, portadores de deficiências e pessoas com crianças. Mas a agência estava lotada, como sempre. Em menos de dois minutos Fidélis foi atendido e se dirigiu a uma mesa reservada para preenchimento de fichas de depósitos. De costas para o vidro que mostrava a rua, ele separou os cerca de R$ 280,00 em quatro e disfarçadamente enfiou os maços em cada um dos bolsos.
Já se dirigia para a porta da agência quando ouviu o chamado de uma garota:
Moço, moço... o senhor esqueceu esse pacote na mesa.
Não é meu, moça. Eu não trouxe pacote nenhum.
Juro que eu pensei que era do senhor. Estava lá na mesa, perto do senhor e agora, o que eu faço com isso?
Entrega ali pro guarda. Ele resolve. Mas de qualquer maneira obrigado, moça.
Fidélis não percebeu, mas do outro lado do vidro da porta, o sujeito de óculos escuros, tênis, calça jeans e camiseta havia, só naquele contato da moça com ele, recebido o sinal para agir quando o aposentado deixasse a agência.
E não foi um esbarrão. Sem perceber, Fidélis foi seguido até um ponto da área central de pouco movimento. Ali, diante de um rapaz nada simpático, fez o que qualquer vítima de bom senso faria: entregou toda a aposentadoria e levou para casa apenas a revolta.





