Londrina - Barbara tem apenas 21 anos, mas já trabalhou em quatro empregos diferentes. Uma nova etapa de sua vida teve início na semana passada, quando ela começou a atender clientes na loja de presentes do tio, no Centro de Londrina. Nada incomum, se Barbara Carolina Galão Palma não sofresse de deficiência intelectual. Para ela, e para muitos que nasceram com déficit de intelecto, conseguir uma vaga no mercado de trabalho não é fácil.
Conforme a terapeuta ocupacional Maria Madalena Sant’Anna, as grandes empresas ainda preferem empregar pessoas com deficiência visual, auditiva e física aos portadores de deficiência intelectual. Isso porque este tipo de deficiência requer o deslocamento de um funcionário que acompanhe a adaptação do novo empregado às atividades da empresa.
Outro entrave para a entrada destes candidatos no mercado de trabalho é a falta de profissionalização no ensino regular. "Alunos de escolas especiais têm acesso a oficinas protegidas, diferente de alunos matriculados no programa de inclusão das escolas regulares",
disse Madalena.
Neste caso, quando o aluno deixa o ensino regular, ou ele fica em casa, vivendo da aposentadoria, ou retorna para a escola especial em busca da profissionalização. "Mas esta segunda opção é mais difícil pois não há vagas nessas instituições", apontou Madalena. Como terapeuta ocupacional, ela já conseguiu encaixar dois profissionais em lojas da cidade e trabalha na inclusão de um terceiro. Um dos casos é o de Barbara, que sempre sonhou em trabalhar numa loja. "Gosto mesmo é de atender os clientes".
Segundo Madalena, o portador de deficiência intelectual tem dificuldade no aprendizado cognitivo, como a leitura e a escrita, mas pode se dar muito bem realizando atividades sistematizadas. "Por isso ele se beneficia da escola protegida, onde participa de oficinas de trabalho", declarou a terapeuta.
Ela assinalou que nas escolas especiais os alunos normalmente descobrem o interesse por algum artesanato, além de aprender a bater cartão ponto, respeitando os horários de entrada e saída, como se estivessem vivendo uma experiência real de trabalho.
No projeto de Madalena, candidatos e empresas passam por um período de adaptação, em que um funcionário é destacado para ensinar as funções ao novo empregado e monitorá-lo até que ele esteja apto a desempenhar a atividade sozinho. São feitas reuniões mensais de acompanhamento entre o monitor e a terapeuta ocupacional. "Chega uma hora em que o monitor passa a ser somente o chefe."
Ainda conforme a terapeuta, o portador de deficiência ganha com a nova oportunidade de crescimento e a empresa ganha o benefício da diversidade. "Até as relações interpessoais melhoram." Para Madalena, a maior dificuldade está nas empresas entenderem que é preciso investir para formar. "A maioria dos empresários ainda prefere candidatos já prontos."

Capacitação
Segundo a diretora da APS Down de Londrina, Ana Cássia Jorge Cestari, hoje a maioria dos alunos capacitados nas cinco instituições especiais da cidade possui cadastro na Agência do Trabalhador. "Dependendo do candidato e do perfil da empresa, o aluno é desligado da instituição após conseguir a vaga", assinalou Ana.
O gerente da Agência do Trabalhador de Londrina, Rogério Luiz Nogueira, não soube precisar o número, mas informou que a demanda por trabalhadores com deficiência intelectual é bem menor em relação às outras deficiências. Segundo ele, as pessoas com deficiência que buscam emprego pela Agência do Trabalhador são atendidas por uma equipe especializada. "O candidato não enfrenta filas e depois de feito um laudo médico, são analisadas as vagas antes do encaminhamento para a empresa."

Oportunidade
Adão Bonin, dono da loja de presentes onde Barbara Palma trabalha, possui uma visão diferenciada da maior parte dos empresários. Ele garante que não deu a oportunidade de emprego à sobrinha apenas pelo parentesco. "Assim que ela terminar o estágio, a loja estará aberta para que outros portadores de deficiência intelectual possam trabalhar aqui", declarou.

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