Londrina - Reais ou virtuais, situações violentas fazem parte do cotidiano de qualquer criança e adolescente do planeta. Transformada em consumo, a violência vira diversão em lojas de brinquedos, na TV, nos jogos eletrônicos e na própria escola (o "bulling" é um exemplo clássico). Com o propósito de substituir essa cultura da violência, entre os mais jovens, a Organização das Nações Unidas (ONU) estabeleceu a primeira década do Século XXI como o decênio internacional de promoção de uma cultura da não-violência e da paz em prol das crianças do mundo. E, para marcar a ideia, o 15 de abril foi eleito como o Dia do Desarmamento Infantil.
A intenção era usar a data para promover ações que envolvessem meninos e meninas em ações de paz, fazendo a troca de armas de brinquedo por livros e gibis. A atividade, na verdade, servia para colocar o assunto em pauta entre as crianças. Em anos anteriores, várias escolas do Paraná recolheram "armas de mentira". Este ano, entretanto, a ideia parece ter perdido força no Estado, ao contrário de outras regiões do País. Em Londrina e na Capital, nenhuma ação foi divulgada pelas escolas.
O coordenador da organização não-governamental (ONG) Londrina Pazeando, Luis Cláudio Galhardi, lembra que as campanhas de desarmamento feitas no Brasil repercutiram também nas lojas de brinquedos, onde as "armas de mentira" são hoje em número bem menor ou vêm camufladas em formatos diferentes. Porém, ele diz que os jogos eletrônicos e a TV ainda estimulam a violência. Nas lan houses, os games mais violentos são os mais populares entre os adolescentes. "Ele atira aqui, mata ali, revive, mata de novo. Os conceitos de viver, matar ou morrer são banalizados", criticou, completando que isso é fruto da "milenar cultura belicista". "Existe um despertar da consciência, mas a paz ainda é um desafio para muitos anos", concluiu.
"A paz está muito relacionada com aquilo que a gente é e, para isso, é preciso luta, militância, discurso e ação", apontou Edson Machalini, que desenvolve o "Projeto Luz, Câmera... Paz! Na Escola", por meio da ONG Central de Notícias dos Direitos da Criança e Adolescência (Ciranda), em turmas de 5ª a 8ª série de 11 escolas de Curitiba.
Machalini explicou que o projeto no qual atua usa situações de violência reais, problemas comunitários - "que são um outro tipo de violência" -, para fazer com que os alunos se posicionem. "Ao final, sempre desenvolvemos um produto que pode ser um vídeo, uma exposição fotográfica, um jornal", descreveu ele. "O desarmamento não está somente relacionado ao objeto arma. O objeto pode gerar sim uma agressão física, mas a minha mão também pode provocar violência, o bulling nada mais é do que a violência verbal, cuja arma é a palavra".
Para Machalini, os meios de comunicação - TV, internet - podem servir tanto para o bem quanto para o mal. Tudo vai depender do uso que se faz dessas ferramentas. "A mídia informa, mas também pode bitolar", advertiu.

mockup