Alguém já escreveu que mulher que é mulher, se pudesse, não vestiria duas vezes a mesma roupa nem acordaria dois dias seguidos com o mesmo humor. Isto serve apenas para ilustrar um dos aspectos da personalidade feminina, que deve deixar de cabelo em pé quem tenta entendê-la. Neste 8 de março, três mulheres falam dos vários aspectos da condição feminina, e lembram que enquanto muitos ainda as relacionam apenas à fragilidade e futilidade, elas seguem vencendo suas batalhas diárias.
''A mulher se projetou muito, se libertou da submissão, mostrou seu valor, e o homem se recolheu. Hoje ele não está à altura da mulher.'' Dona Irene Cruz Corrêa (que prefere não revelar a idade), dois filhos, seis netos, quatro bisnetos e um único e grande amor na vida, sabe do que está falando. Nas últimas décadas, ela acompanhou de perto as conquistas femininas, entre elas o uso da calça comprida e a inserção no mercado de trabalho.
Fanática por informação e antenada a tudo que acontece sua principal forma de comunicação com os muitos amigos é o e-mail , dona Irene coloca suas semelhantes em alerta: ''Muitas mulheres ainda não sabem o seu valor, e mesmo nesta época de tanta informação, elas são muito infelizes.'' Um dos ingredientes de uma boa receita de vida, ensina, é que as mulheres voltem a ser mais femininas. ''E isso não tem nada a ver com a forma de se vestir, porque não é o hábito que faz o monge.'' Se pudesse, ela ainda diria a cada uma das mulheres do mundo que só concebessem filhos por amor, dentro de suas possibilidades. ''Já na minha época eu me cuidei para não ter muitos filhos.''
Acostumada a enfrentar tabus, a professora aposentada Fernanda Jiran, que revela apenas já ter feito 70 anos, acha que enfim a mulher conquistou um lugar ao sol. ''Eu cursei teologia no meio de 122 homens, sou de uma época em que não se alugava apartamento para mulher sozinha e não podíamos entrar desacompanhadas em bar.'' Apesar dos visíveis avanços, Fernanda lembra, porém, que ainda há muito preconceito arraigado na sociedade.
Alguns dados estarrecedores sobre o universo feminino ilustram o que diz a professora. Estima-se, por exemplo, que das 200 milhões de mulheres existentes no mundo, 80 milhões deixaram de nascer simplesmente por serem mulheres. Muitas sociedades, entre elas a China, supervalorizam os filhos, em detrimento das filhas. No mundo todo, a mortalidade infantil entre 1 e 4 anos é maior entre as meninas, que recebem menos comida e menos cuidados médicos. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), a cada dia 6 mil meninas ainda são submetidas ao milenar ritual da mutilação genital. Isso sem falar nas outras milhares que são vítimas de abuso sexual e todo tipo de maus-tratos.
Ainda assim, lembra Fernanda, a mulher é mais versátil, tem uma capacidade maior de superação e consegue se realizar mais facilmente que o homem. O grande paradoxo, lembra a professora, é que quase sempre é a mulher que tem a maior responsabilidade pela educação dos filhos (homens), que ainda perpetuam conceitos machistas. Para Fernanda, integrante de uma família de mulheres e admiradora incondicional das grandes divas do cinema, a fragilidade feminina é só aparente. ''Moralmente, é ela que segura as pontas. Como diz aquela famosa frase, a mão que embala o berço governa o mundo.''
Com menos experiência de vida, mas com uma maturidade surpreendente, a estudante Ingrid Munhoz Albano, 18 anos, já sentiu na pele a pequena guerra ainda existente entre os sexos. ''Já tive três empregos e percebi que os homens competem muito com as mulheres, e se exibem muito para nos superar. Eles têm a vantagem de ser aceitos por mais tempo que nós no mercado de trabalho.'' Mesmo assim, Ingrid lembra dos avanços feitos pelas mulheres e vê o futuro com otimismo. ''Acho que daqui a 20 anos vai estar melhor ainda. Estaremos plenamente nos planos da sociedade.'' E elogia a escolha de um dia para homenagear a mulher: ''É bom para que lembrem o quanto somos importantes''.

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