Quem atravessa pela primeira vez a fronteira de Foz do Iguaçu para fazer compras em Ciudad del Este, no Paraguai, fica pasmo diante de tantos produtos a preços mais que atraentes. Com o dólar em baixa, tudo parece estar ao alcance do bolso. No primeiro final de semana de maio, a reportagem da Folha embarcou numa viagem dessas e comprovou que o acirramento das ações repressivas contra os ônibus promovido pelas autoridades brasileiras provocou pelo menos uma mudança no perfil dos sacoleiros que se arriscam em trazer ''muamba'' do país vizinho: boa parte deles tem optado pelo contrabando ''formiguinha'' cargas menores escondidas em veículos pequenos.
O dia como sacoleiro começou no final da tarde de 5 de maio. Saindo de Londrina, foram seis horas trafegando em carro de passeio por rodovias pedagiadas até Foz do Iguaçu na companhia de mais três pessoas. Por volta de 23h30 já estamos acomodados em um hotel popular mas, antes de dormir, é preciso encher o tanque do carro. Para economizar, nosso ''guia'' segue para Puerto Iguazu, na Argentina, onde o litro da gasolina não passa de R$ 1,40. O problema é que todos parecem ter a mesma idéia e a tarefa, que seria simples, demora três horas.
O dia seguinte começa antes do sol nascer. ''É preciso entrar logo no Paraguai para não pegar congestionamento'', explica o londrinense que aceitou revelar os segredos de quem faz compras no ''formigueiro paraguaio''. Às 6 da manhã, a avenida de acesso à Ponte da Amizade está lotada por vans e mototaxistas que levam trabalhadores e sacoleiros brasileiros para o outro lado do Rio Paraná. Alguns poucos ônibus desembarcam compradores. As lojas já estão quase todas abertas e as ruas fervilham. Nas ruas centrais de Ciudad del Este, vendedoras em minissaias retocam a maquiagem enquanto outras mulheres transitam com cestas de ''chipas'' salgado típico na cabeça. Senhoras passam oferecendo frutas diversas. Nas ruas menos movimentadas, os motoristas das vans escondem cargas de cigarro em pneus e fundos falsos.
Nossa primeira parada é numa loja de pneus que custam, em média, 20% mais baratos que no Brasil. ''Só que não dá para levar por causa da fiscalização'', reclama o londrinense. Seguranças armados com espingardas guardam as portas dos estabelecimentos. Depois, é fazer a troca numa ''gomeria'' e seguir para mais compras. Com cerca de US$ 2,5 mil no bolso, o rapaz que concordou com a companhia da reportagem revela que seus alvos principais são os shoppings de eletroeletrônicos, equipamentos de informática e celulares, mercadorias bem mais lucrativas e de venda praticamente garantida. ''Acho que vale a pena porque tenho um lucro de R$ 1,5 mil a R$ 2 mil por viagem'', completa. Nas lojas de notebooks, seguranças observam tudo. Até tirar uma foto é um risco. ''Você é jornalista? É espião? Agente federal?'', me questiona um deles enquanto pede minha identidade.
Compras feitas, é hora de retirar e testar os equipamentos. ''Tem garantia?'', pergunto. ''A garantia (das lojas) é de boca. Se você precisar trocar outro dia é muito difícil'', aponta. Em seguida, retornamos rapidamente para o carro para ''esconder'' os produtos. Apenas algumas mercadorias diferentes umas das outras seguem à mostra no porta-malas ou entre os bancos para disfarçar caso o veículo seja parado na aduana ou em algum posto policial. O grosso notebooks, DVDs, carregadores, máquinas dígitais recheia a lataria.
Pouco depois das 10h30, já estamos prontos para cruzar a fronteira de volta a Foz. A Ponte da Amizade está novamente lotada dos velhos táxis ''Corolla'' paraguaios e de vans. Ambulantes crianças e adultos circulam por entre os carros parados oferecendo todo tipo de quinquilharias. A ansiedade aumenta quando o veículo se aproxima da aduana mas o sacoleiro garante que nunca teve suas mercadorias apreendidas nestes mais de dois anos de viagens para o Paraguai. ''Já tive que dar alguma coisa para policiais na estrada. O risco de perder tudo é grande mas acho que o risco maior são os calotes'', avalia.
No retorno para casa, os pontos de risco são as blitze das polícias rodoviárias Estadual e Federal e o posto da Receita Federal, em Medianeira, que, desta vez, estava fechado. Na rodovia, passamos por alguns guardas mas nenhum sinalizou para que parássemos. Apenas em Maringá tivemos que fazer um desvio forçado por uma estrada de terra no Distrito de Floriano depois de sermos flagrados em uma fiscalização por radar a mais de 120 km/h. Pouco depois das 18 horas, já estávamos em Londrina.
Comprovando o que a Receita Federal já detectou, o londrinense diz que o contrabando ''formiguinha'' aumentou, e muito, depois que as autoridades brasileiras passaram a agir com mais rigor contra os ônibus. ''Nesse ano, os carros aumentaram muito. Antes, a gente encontrava fila de até mil ônibus na ponte e hoje não se vê mais isso'', fala. De carro de passeio, conclui, o risco de apreensão existe mas hoje é bem menor do que em excursões.

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