Um dia de tiroteio
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 30 de julho de 2002
Mauricio Della Barba 
A bala passou zunindo no ouvido de Débora, que descia naquele momento do ônibus. Chegava de mais um dia de trabalho, cansada e com dores nos pés de tanto usar sapatos de salto, já que era atendente de uma loja de celulares. O barulho assustou Débora, que automaticamente se abaixou e tentou se esconder.
O motorista do ônibus, também apavorado, saiu a toda, deixando a pobre atendente só, no ponto. O tiroteio continuava e Débora rapidamente procurava enxergar um local seguro. Saiu correndo ao ver um muro alto e escuro, que pelo menos serviria de proteção para as costas.
Com a pequena bolsa agarrada no peito, a atendente caminhava lentamente, mantendo-se sempre agachada, rumo a sua casa, a uns dois quarteirões dali. Era noite, e o pouco que via era os fachos das luzes dos disparos, do outro lado do bairro. As casas vizinhas estavam apagadas e não havia movimento dentro delas. Nas ruas, nem os cachorros e gatos ousavam aparecer. Decerto já haviam se acostumado com a morte de alguns da raça durante semelhantes confusões.
Mas Débora sabia que não podia ficar por ali. Tinha que sair o mais rápido possível. O medo tomou conta e fez com que partisse desvairada pela rua, rezando para que não fosse atingida. Correu, correu e correu.
Chegou no portão de sua casa esbaforida, suando. Sua mãe, já aflita de tanto esperar a filha, abriu a porta antes mesmo que ela tentasse. Apagaram as luzes, sentaram de mãos dadas na cama e rezaram junto ao som das balas.
Passaram horas ali, com medo. Quando o tiroteio foi suspenso, as duas, com cuidado, foram voltando a normalidade. Acenderam as luzes, espiaram pela janela e trocaram algumas conversas. Débora tomou seu banho, bebeu a sopa de feijão e sentou em frente a TV. Já um pouco mais relaxada, suspirou e disse a mãe:
- Meu Deus, que dia !
Era mais um dia de Débora, uma moradora da periferia de Londrina, cansada do trabalho, cansada da violência.


