Um dia de consumo
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quinta-feira, 27 de junho de 2002
Luka Morais<BR>Reportagem Local 
Profissional bem-sucedido, Heitor nunca foi o tipo de pessoa ligada ao consumo. Também não tinha nada contra quem passa horas a fio olhando vitrines, entra nas lojas e, num impulso, comete loucuras. Daquelas de ficar com dor de cabeça e se arrepender amargamente ao fazer os cálculos dos cheques pré-datados e constatar que a situação no mês seguinte vai ficar apertada. Mas naquele dia, o dentista resolveu que ia se dar ao luxo de renovar o guarda-roupa.
Despreocupado, entrou na loja de artigos masculinos e mandou ver. Comprou camisas, calças, dois pares de sapatos, um terno em promoção, gravatas e, para completar, um pijama. Pensou ter exagerado na dose, mas concluiu ter feito um bom negócio. Além disso, se eu não achar que mereço umas extravagâncias de vez em quando..., pensou, amenizando o peso na consciência.
Decidiu almoçar com a esposa em um restaurante. Caprichou no cardápio e na gorjeta para o garçom. Na saída, esbarrou no menino que pedia um trocadinho. Casado com uma socióloga, Heitor tinha consciência de que não deveria incentivar a permanência de crianças nas ruas. Ele e a mulher desviaram os olhos do menino e foram embora.
Depois de deixar a mulher no trabalho, ele seguiu ao consultório e atendeu alguns pacientes. No final do dia, mais cuidados pessoais. Cortou o cabelo, fez a barba e seguiu ao clube para uma sauna. Pensou nos filhos, um de sete e outro de nove anos, e voltou ao centro da cidade. Entrou no shopping e comprou CDs de jogos. Ao passar em frente à loja de importados, o último impulso: perfume para a mulher e para ele.
No caminho para a casa, Heitor parou no semáforo, exibindo um sorriso de satisfação. Momento em que o menino camiseta amarelada, alguns furos, cabelo encaracolado parou ao lado da janela, estendendo a mão: Tio, paga um sanduíche. Estou com muita fome.
Convicto de que não estimularia a permanência de crianças nas ruas, nem incentivaria a exploração de menores pelos pais, Heitor fez o sinal negativo com a cabeça. Antes do arranque do carro, ouviu o choro do menino.
Coração apertado, consciência pesada pelo consumo, o dentista ainda seguiu algumas quadras. Olhou no relógio, que marcava 22 horas. Pensou na hipótese de a criança ter que voltar para casa e apanhar dos pais. Numa hora dessas já não tem mais chance de arrecadar os trocados, remoeu. Deu a volta, tirou o dinheiro do bolso e foi ao semáforo entregá-lo ao menino. Que retribuiu com um sorriso.
Em casa, antes de dormir, lembrou cada detalhe daquele dia. A imagem da criança que se protegia do vento com uma camiseta esburacada... O pedido, o choro, o sorriso. Só conseguiu pegar no sono depois de mandar às favas as teorias sobre como se deve agir diante das situações do cotidiano.


