Chovia forte e o garoto subia a Avenida Duque de Caxias – que corta o centro de Londrina – no sentido norte-sul até onde a pista é simples. Protegido por um velho guarda-chuva, assobiava uma canção da moda, meio sem ritmo e com linha melódica comprometida. Detalhe: vestia camiseta branca novinha. Percebia-se pelo vinco.
A Duque de Caxias, infelizmente, não é um bom lugar para pedestres quando chove. Quem transita por lá já sabe que em alguns pontos as poças d’água, à beira do asfalto, podem resultar num banho quando um carro passa em alta velocidade. Por isso, nesses locais o pedestre mais avisado segura os passos se um veículo se aproxima.
Não era o caso do menino. E a esquina se aproxima, com a água suja acumulada. A camisa é branca e o carro tem a cor verde. Verde também é a luz do semáforo, que está quase para entrar no amarelo e em poucos segundos fecha com o vermelho. O motorista pisa, para aproveitar a passagem. O motor ronca, o menino caminha e a água sobe, atirada para os lados.
A camisa era branca e o menino, moreno claro, está entre o branco e o vermelho. Não sabe se grita contra o motorista ou disfarça, fazendo de conta que nada aconteceu. Impossível. Quando ele se observa, a camisa está rajada, com o branco fazendo fundo para o encardido. O carro, por sua vez, seguiu verde, se apressando para encontrar mais a frente outro sinal verde e assim aproveitar o intervalo programado dos semáforos naquela via. O motorista, que nem percebeu ter dado banho no menino, também prosseguiu com sua camisa salmão.
Uma senhora, que assistiu a tudo, lamentou pelo menino ter sujado a camisa. O empregado de um loja reclamou que suas mercadorias costumam ser atingidas pelos jatos de água que as rodas dos carros espalham. O dono do estabelcimento vizinho disse que o poder público deve há meses uma providência. E depois se conformou, exemplificando outros pontos da cidade onde pedestres costumam ser banhados com água acumulada das chuvas. O menino, nervoso, foi embora, sem dizer nada. Com a camisa branca manchada

mockup