A avenida Rio de Janeiro, em Londrina, é uma pegadinha bem no seu trecho central, entre a rua Santa Catarina e o Calçadão, onde a mulher desce correndo, puxando pela mão o menino. Dois londrinenses que fogem da chuva, tentando a inútil proteção sob a copa das árvores. É quinta-feira, a chuva engrossa e o frio aperta, depois de semanas de inverno quente. A calçada é de petit pavet e não seria tão escorregadia se no trecho houvesse limpeza.
Ah, de quem seria a responsabilidade de tal limpeza? Do comércio que ocupa uma das margens ou do poder público? A sujeira é aquela que às vezes pega o cidadão de surpresa bem no dia em que ele se vestiu com roupas claras, proveniente da necessidade fisiológica dos pássaros que cantam, dormem, se alimentam e se abrigam entre as folhas verdes das espécies que ladeiam a praça que o londrinense conhece como a das Bandeiras.
Então, por força dessa necessidade, os pássaros sujam a calçada, que em dia de sol nem desperta ira. Quem transita pelo local já se acostumou com o chão tomado pelo excremento. Mas, em dia de chuva, haja cuidado! Além do aspecto que causa nojo, sapato com solado liso exige malabarismo.
A mulher usa sandálias e se equilibra como pode. Cuida-se tanto para não escorregar quanto para evitar que respingos daquela água misturada com excremento sujem seus pés. O menino, coitado, bem nesse passeio de resultado infeliz, por causa da chuva, calçou um tênis surrado, de sola gasta e lisa que nem de borracha era.
A mãe corria, fazendo ziguezague, como se fosse magra suficiente para escapar das gotas de chuva. E o menino atrás, levado pelas mãos. Literalmente, puxado e até levantado do ar quando uma poça de água maior aparecia à frente.
Cena engraçada, para quem aproveitava a chuva para descansar sob a marquize de uma loja. Oportunista, para o vendedor de guarda-chuva: Olha aí, minha senhora, guarda-chuva bem barato na minha mão...
Até o tombo, após a derrapada no momento em que a sandália direita tocou o chão de lado. Ao redor, olhares irônicos de uns, solidariedade de outros. Enquanto o menino, distraído e alisando o solado do tênis no excremento, observava o vendedor de guarda-chuva, que para disfarçar e fazer de conta que nada havia acontecia bem a sua frente, mais gritava: Guarda-chuva barato na minha mão e ninguém precisa correr...

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