Em 30 anos de apostas, foram apenas duas semanas sem a visita ''religiosa'' à lotérica. À noite, muitas vezes o que seriam tranquilas horas de sono acabam se tornando um verdadeiro pesadelo de números e esquemas prontos para serem postos na cartela. A rotina, definida como ''alucinada'', é do pesquisador histórico Alcides Miranda, de Londrina. Assim como ele, milhões de brasileiros tentam a sorte todos os dias nas múltiplas possibilidades de jogos oferecidos em mais de 55 mil terminais de computador espalhados pelo País.
Segundo o presidente da Federação Nacional das Lotéricas (Fenal) e do Sindicato Estadual dos Lotéricos, Aldemar Mascarenhas, até este mês já foi registrado um aumento de 8% no volume de apostas, comparado a 2002. Entre as razões que ele aponta, está o aumento do número de lotéricas em todo o Brasil de 6,5 mil para 9,5 mil, nos últimos anos. ''Não é o povo que melhorou de situação financeira, mas as bases de arrecadação e a variedade de jogos que proliferaram. Isso cria expectativa no apostador'', destacou.
Tanta expectativa pode ser vista nas longas filas nos dias de sorteio (especialmente às quartas-feiras e aos sábados), e nos números da Caixa Econômica Federal, responsável pela maior parte dos jogos. Mal foi lançado, no início do mês, o Lotofácil atingiu mais de 2,8 milhões de apostas já na primeira semana de vendas.
Em Londrina, as 27 lotéricas não têm do que reclamar, graças a apostadores como Miranda. ''Jogo desde o primeiro concurso da Loteria Federal (que, hoje, está na extração 3.779). Semana retrasada, acertei a quadra e recebi R$ 160. Mas o meu preferido, de longe, é a Loteria Esportiva acompanho a tabela jogo a jogo e chego a sonhar com qual time vai ganhar'', admitiu. Ele nega que os R$ 150 gastos mensalmente com o jogo prejudiquem o orçamento familiar. Alguma dica aos apostadores iniciantes? ''Não adianta jogar os mesmos números, tem que seguir a intuição. E apostar sempre, cada vez mais, pois isso aumenta as chances de ganhar'', ensina ele, que diz ter sido contemplado (''com prêmios pequenos'') pelo menos 20 vezes.
Mais comedido, o assessor parlamentar João Ricardo Sanches comenta que o hábito de apostar uma vez por semana três bilhetes na Mega-Sena veio da avó. ''Ela sempre pegava R$ 3 da aposentadoria e jogava para nós'', lembra. Mas a mesma assiduidade não é observada na conferência dos resultados: ''Sou muito distraído. Até porque, se jogo no sábado e ganho, não teria mesmo onde aplicar no domingo'', brinca.
O imobiliarista Jaci Aguiar diz que não se arrepende dos R$ 20 gastos semanalmente em todos os tipos de loteria, mesmo tendo ganhado somente uma ocasião. ''Foi em junho de 1970, mas foi o primeiro prêmio da Federal. Desde então, jogo sempre os mesmos números; uma hora acerto de novo'', acredita.
O dono de uma lotérica na Vila Brasil (área central), Cassiano Mascarenhas, não duvida. ''Apostador é tudo meio misterioso, cheio de manias...'', comenta. O taxista Joserval Duim, na fila de apostas, concorda. ''Hoje mesmo joguei nos dias em que meu pai nasceu e morreu'', exemplificou. Questionado sobre a frequência com que aposta, no entanto, Mascarenhas surpreende: ''De duas a três vezes por mês. Vejo tanta gente jogar e não ganhar nada que, não sei, não...''

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