Um conflito que pode custar vidas
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 06 de novembro de 2009
Silvana Leão<br> Reportagem Local 
A morte de duas crianças e de um homem em acidentes com trens de carga nos municípios de Cambé e Ibiporã (Norte), esta semana, reacendeu a discussão sobre a necessidade de se encontrar soluções para o conflito gerado pela presença das linhas férreas no perímetro urbano. Vários municípios, como Curitiba, Apucarana e Cambé já desenvolveram projetos para desviar ou rebaixar os trilhos (leia texto nesta página), aumentando a segurança para a população. Em Maringá a situação está mais adiantada: em dezembro do ano que vem devem ser concluídas as obras que transferem definitivamente os trilhos para debaixo de ruas, túnel e viadutos.
Para o professor Camilo Borges Neto, do Departamento de Transportes do Setor de Tecnologia da Universidade Federal do Paraná (UFPR), cada município deve discutir o problema e a solução que melhor se adequa à realidade local. Ele ressalta, porém, que enquanto a saída definitiva não é viabilizada, investimentos em educação da população e sinalização dos locais de passagem dos trens devem ser feitos.
''O sistema ferroviário nacional está totalmente obsoleto e há mais de 50 anos não são feitos investimentos de vulto no setor. Uma esperança é que alguns problemas sejam resolvidos por meio do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento, do governo federal)'', diz Borges Neto. O professor lembra que muitas cidades se desenvolveram no entorno das linhas ferroviárias, sem que providências para garantir a segurança da população fossem tomadas. ''As ferrovias sempre foram um atrativo por oferecerem vários serviços no seu entorno, como escolas e hospitais.''
Segundo informações da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), a responsabilidade por garantir a segurança da população em relação às linhas férreas é de cada município. Como as ferrovias chegaram antes das cidades, as concessionárias que operam essa modalidade de transporte são obrigadas apenas a fazer a manutenção da malha e providenciar sinalização adequada, de forma a garantir a segurança das cargas.
O arquiteto Luiz Masaro Hayakawa, assessor da presidência do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (IPPUC), argumenta, porém, que dizer que o trem veio primeiro que as cidades não justifica as mortes decorrentes dos acidentes com as composições. ''É mais fácil tirar o trem do que a cidade que cresceu em torno da ferrovia.''
A sugestão do arquiteto é a transferência das linhas para áreas de menos conflitos viários e sociais, e posterior desenvolvimento de um plano de ocupação, transformando o trecho em área de integração urbana.
''Hoje já existe um consenso entre os governos federal, estadual e prefeituras de que os trens de carga têm que ser retirados dos trechos urbanos, e isso já é meio caminho andado para as soluções. A fiscalização de toda a linha que passa pelos centros urbanos é muito difícil, daí o grande risco para a população'', argumenta Hayakawa.


