Cianorte - Trinta e cinco anos depois da inauguração da ferrovia em Cianorte, não há trens na cidade e a estação, cedida à Prefeitura, se transformou em um centro cultural, onde os alunos de escolas públicas têm aulas de balé, música e história. O transporte de passageiros no trecho Cianorte-Maringá cessou ainda na década de 90 e, gradativamente, todo o tráfego após a privatização da ferrovia.
Na estação, que abriga as secretarias municipais de Cultura e de Educação, ocorrem exposições e festas tradicionais e os estudantes podem ouvir o próprio secretário municipal de Cultura, Oscar Alberto Boeing, contar a história da cidade, numa sala repleta de fotografias. Algumas da ''inauguração'' do Patrimônio Cianorte (26.6.1953), que se tornou sede de município em 13 de julho de 1955, antes mesmo da primeira igreja, inaugurada na Páscoa de 1956.
A igreja, uma construção de madeira, foi restaurada em 2002 e transformada em auditório de teatro graças ao patrocínio da Fundação Morena Rosa, ligada a uma das grandes indústrias de vestuário da cidade. No lugar do altar, um palco onde uma companhia de Rolândia já encenou uma opereta. A maior parte da programação (música e teatro) é sustentada pela Secretaria de Cultura do Estado. ''O município se responsabiliza pelo transporte e a alimentação dos grupos. Oferecemos isso de graça ao povo'', diz Boeing.
Contabilista, músico e estudante de Direito, Boeing diz que a conservação da estação se faz pelo uso. E explica a grande afinidade pessoal com a história da cidade e da ferrovia: seu avô Benedito Martins Lima foi mecânico da Estrada de Ferro São Paulo-Paraná em Ourinhos e a mãe, Gilda de Lima, após ser babá na residência de Arthur Thomas em Londrina, ingressou na Companhia de Terras Norte do Paraná (CTNP/Cianorte) em 1942. Já o pai, Oscar Boeing, foi um dos fiscais da Companhia Melhoramentos Norte do Paraná (sucessora da CTNP) que participaram da demarcação de Cianorte a partir de 1948.
O primeiro trem partiu de Cianorte em 23 de outubro de 1972, levando 1.500 sacas de café. E a ferrovia jamais foi para frente, arquivando-se o projeto de estendê-la a Guaíra, ponto de conexão com um ramal até Assunção, que caberia ao governo do Paraguai construir.
O acervo na estação não tem sequer uma fotografia de trem na cidade; nem o livro ''Cianorte, sua história contada pelos pioneiros'' (*) reproduz alguma. Talvez porque a ferrovia não tenha causado impacto, ao chegar num tempo em que ''os passageiros, os bens de consumo em geral, as produções contavam com meios mais eficazes para viagem e escoamento'', consta no livro. ''Por isso a estrada de ferro até Guaíra não foi concluída.''
Assim mesmo, o trem ''ganhará voz'', na peça ''Menina dos Olhos'', informa Boeing.
O trem será personagem falante, arrogante ''como se fosse majestade'', ao responder às mulheres de um ''lugar incerto e não sabido'' (L-I-N-S) que lhe pedem notícias dos maridos, que um dia seguiram a construção da ferrovia e não mais regressaram. A presença de naturais de Lins em Cianorte é provável, indica pesquisa no livro dos pioneiros, mostrando que os paulistas passaram a ser maioria (45,16%) da ''população entrante'' em 1960, superando os cearenses, que eram predominantes em 1955, representando 25% da povoação.
(*) Autoras: Helena Cioffi, Irene Gimenes Praxedes, Izaura Aparecida T. Varella e Wilma Kobayashi Mesquita. Projeto Resgate Cultural de Cianorte, Prefeitura Municipal, 1995.

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