"Nunca imaginei que chegaria aos 100 anos, mas agora, bem que eu poderia ganhar mais uns cinco", diz Joaquim Martins, ao lado da mulher Conceição Beraldi
"Nunca imaginei que chegaria aos 100 anos, mas agora, bem que eu poderia ganhar mais uns cinco", diz Joaquim Martins, ao lado da mulher Conceição Beraldi | Foto: Saulo Ohara



Ele faz questão de resgatar nomes e datas de fatos ocorridos décadas atrás. Para isso, faz uma pausa breve e, num fechar dos olhos, consegue trazer muitas dessas lembranças para a mesa de jantar, seu lugar preferido em casa.

As cadeiras da mesa de seis lugares parecem novas. Foi porque Conceição Beraldi e Joaquim Martins fizeram questão de pintá-las de branco recentemente. Eles estão animados com a comemoração dos 100 anos de Martins.

Ele nasceu em 10 de junho de 1918, em uma família de italianos, em Trajano de Moraes (RJ). Da infância no Espírito Santo, mantém a tradição de comer carne seca diariamente. "Mas também não abro mão de tomar um litro de leite por dia. Acho que minha saúde vem daí", brinca, completando que nunca teve vícios, como cigarro e bebida, e também não tem doença. "Só tomo vitamina como cálcio, essas coisas", diz.

Dos dez filhos, somente ele e a irmã caçula estão vivos. E como se completar 100 anos fosse algo totalmente natural, Martins conta que aprecia ir para a cozinha preparar uma refeição, varrer a calçada e passar pano no chão na casa todos os dias, e ainda fazer o mercado e pagar as contas na lotérica.

A dedicação com o lar sempre foi uma característica de Martins. Aliás, esses afazeres sempre foram levados muito a sério e em conjunto pelo casal, que em julho completará as bodas de macieira pelos 74 anos de união.

"O segredo é paciência. Quando um está bravo, o outro fica quieto", aponta ele, enquanto Conceição ri, timidamente. O casal se apaixonou à primeira vista, mas do primeiro encontro ao casamento foi preciso esperar quatro anos, pois a noiva deveria completar 17 anos.

Do Espírito Santo ao Paraná foi uma viagem de seis dias e seis noites de trem. Ao chegar em Apucarana (Centro-norte), lamentaram os impactos da geada negra nas lavouras de café e sentiram na pele as baixas temperaturas. Já adaptados à terra vermelha, tiveram que novamente mudar de endereço. O motivo foi o nascimento do caçula Jaime Martins, hoje com 52 anos.

"Ele começou a andar e percebemos que ele não escutava. A gente fazia barulho e ele nada. Fomos para São Paulo consultar um especialista que nos deu duas orientações: não deixar ninguém mexer no ouvido do nosso filho e procurar uma escola para surdos em Londrina, considerada a melhor naquela época", recorda.

LIÇÃO DE VIDA
Em 1972, o casal deixou Icaraíma (Noroeste) rumo a Londrina. "Era uma obrigação meu filho ir para a escola, aprender, ser educado", comenta Martins, lembrando da própria história. "Eu nunca fui para a escola. Quando eu era criança, a escola mais próxima de casa ficava a pelo menos seis quilômetros de distância, mas eu sei ler e aprender", afirma.

Martins foi alfabetizado em casa, pelo irmão mais velho. Além disso, chegou a fazer hora extra nos finais de semana em troca de aulas com o dono do sítio. Mas o passado de Martins é ainda mais curioso quando ele conta que, além do filho Jaime, cuidou de outras seis crianças surdas.

"As famílias que moravam em outras cidades tinham dificuldades em trazer os filhos ao Iles (Instituto Londrinense de Educação de Surdos) e nós abrimos as portas de casa. Eu lembro bem dos meninos novinhos, chorando de saudades dos pais. Eu os fazia dormir no meu colo", relembra Beraldi.

Martins conta que as famílias davam uma ajuda de custo, mas que todos eram tratados como filhos, igualmente. "Todos sentavam nessa mesa para comer. A gente não sabia libras, mas todo mundo se entendia por leitura labial e alguns sinais básicos", revela Martins.

Durante quase dez anos, a família Martins foi assim, numerosa. Hoje, quase quatro décadas depois, o casal agradece a Deus por mantê-los em contato, pois as crianças cresceram, trabalham e formaram novas famílias. "De vez em quando eles aparecem para uma visita", comenta Martins, que também mantém a porta aberta para os sete filhos, 15 netos e 12 bisnetos. São tantas "idas e vindas" que uma tinta nova nas cadeiras é apenas um detalhe em uma casa que mais parece um coração de mãe.

E se o futuro depender da disposição para a vida ou de um litro de leite por dia, Martins ainda apagará muitas e muitas velinhas. "Nunca imaginei que chegaria aos 100 anos, mas agora, bem que eu poderia ganhar mais uns cinco, né?", diz, sorrindo.

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