Um caso que atesta a incompetência de todos
Uma boneca suja e uma chupeta na mão. Desta forma, a jovem teve o primeiro contato com a promotora Édina Maria Silva de Paula. Anos depois, após diversas tentativas de resgatar a garota, a notícia da contaminação com o vírus da aids. Para a promotora, o caso é o atestado de incompetência do poder público e da sociedade, que têm a obrigação, prevista no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), de zelar pelos direitos dos menores de 18 anos.
Édina conta que a vida da garota sempre foi nas ruas. A mãe sofre com problemas mentais e o pai teve derrame e vive de cama. Com 13 anos, ela foi encaminhada para fazer tratamento de drogadição em uma clínica especializada, onde ficou por pouco mais de dois anos. Apesar da insistência do irmão, a promotora negou-se a tirar a menina da instituição. ''Ela não pode vir ainda para Londrina. E além disso eu tenho feito contato com ela e ela está gostando de lá e quer ficar lá'', argumentava Édina, na época. Durante um período de licença da promotora, a menina voltou para Londrina. Depois, foi descoberto que a jovem era vítima de violência sexual do próprio irmão. ''Nessa época, ela já me chamava de mãe'', conta a promotora.
O reencontro com a garota no Fórum reservou surpresas desagradáveis. A própria descrição feita pela promotora, mostra o ''susto.'' ''Uma blusinha de alcinha, enfeite no cabelo, maquiada, de batom, sandália de salto, com uma carteira de cigarro na mão.'' Ela também confirmou que estava fazendo ponto na cidade. No carro da promotora, foram para um posto de saúde, para fazer o exame de HIV.
Na sequência, a promotora fez um desabafo emocionado ao coordenador estadual das Varas da Infância e Juventude. Chegou, no impulso, a pedir demissão e voltar atrás pouco depois. ''O atestado de incompetência está assinado. Um município inteiro, com um monte de programas sociais. Eu, promotora da Vara da Infância e Juventude, que tem o dever legal de dar proteção integral, deixar chegar ao ponto de esta menina contrair HIV. Falei isso num monento de muita emoção e comecei a chorar'', relembra.
Algum tempo depois, a jovem voltou a procurar a promotora em busca de ajuda. A menina contou ter ficado doze horas seguidas com um amante em um motel usando drogas. Não conseguia nem comer. ''Condicionei a ajuda à sua própioria colaboração'', contou 'Edina. A vaga em clínica psiquiátrica em Curitiba ficou somente para o dia 3 de janeiro.
A condição imposta foi ficar internada na Casa Abrigo, para evitar recaídas no vício. No natal, ganhou um par de sandálias de presente da promotora. Em seguida, com crise de abstinência, voltou às ruas e às drogas. Édina reafirmou que só teria ajuda se voltasse para a casa abrigo. O pedido, pelo menos por enquanto, estava sendo atendido pela garota.





