Alvorada do Sul – Domingo pela manhã, o carro da reportagem da FOLHA passa pela avenida principal de Alvorada do Sul (Norte) e de repente uma imagem surpreende pelo contraste. Composta por móveis rústicos de madeira – no salão abaixo e no mezzanino que ocupa toda a lateral superior –, por uma reluzente balança Filizola e uma máquina registradora à moda antiga, a Farmácia São Sebastião parece um cantinho dos anos 1940 preservado até 2006.
  Abre-se a porta dos fundos, que dá para a sala de vacinas, e nos deparamos com o proprietário Sebastião de Melo Gonçalves, mais conhecido por ‘seo Melo’. Com 83 anos, e ainda no batente, conta aos curiosos que abriu as portas em 1946, época em que ‘‘Alvorada do Sul nem cidade era. Nem vila. Era uma fazenda apenas, a Fazenda Alvorada’’.
  Nascido em São Paulo, seo Melo passou por Maringá e Cornélio Procópio antes de fixar raízes em Alvorada, onde se tornou proprietário da Caixa Postal No 1 do município. Simpático, lúcido e bem humorado, nosso anfitrião ‘passeia’ pela história do Norte do Paraná enquanto relembra a própria vida.
  ‘‘Os proprietários da Fazenda Alvorada, da família Lima Nogueira, eram compradores de café que moravam em São Paulo. Essa área aqui era toda deles’’, diz, em referência ao perímetro urbano e rural do município.
  Aquele era um tempo tão diferente dos dias atuais, conta ele, que a política - por incrível que pareça aos brasileiros de hoje - mais dava prejuízo que benefício aos administradores públicos. ‘‘Eu fui quatro vezes vereador e cinco vezes vice-prefeito. Meu último mandato foi entre 1978 e 82. Depois, larguei porque as coisas e os costumes mudaram muito, hoje tem muita desonestidade. Nunca mais quis disputar.’’
  Dono de personalidade minuciosa, o farmacêutico mantém coleções de todo tipo e dificilmente se desfaz de seus pertences: selos, objetos indígenas da região, mobílias antigas, instrumentos da profissão já aposentados, vidros e embalagens de antigos medicamentos, placas e quadros comemorativos de Alvorada, receitas médicas, relógios de parede, flâmulas do Sport Clube Corinthians Paulista - o time de coração, e exemplares da Folha de Londrina - da qual é assinante há décadas. Também mantém preservada a sala onde instalou um radioamador na época em que o equipamento era o único meio de contato entre Alvorada do Sul e o resto do mundo. Em todo canto, limpeza e organização, como se tudo estivesse em uso até hoje.

Rolhas – Enquanto conversa, seo Melo vai deixando a área de atendimento da farmácia e adentra a sala dos fundos, onde aplica vacinas, guarda seus ‘tesouros’ e faz a contabilidade do estabelecimento. Entre tubos de ensaio e balanças manuais que hoje seriam relíquias em qualquer antiquário, ele explica que nas primeiras décadas de ofício, não existia remédio pronto.‘‘Só os que a gente preparava’’.
  Um objeto que lhe causa especial recordação é um pequeno jacaré de ferro que toma nas mãos para desafiar o repórter a adivinhar sua utilidade. ‘‘Isso aqui ninguém mais sabe para que serve.’’ Tirando uma rolha da gaveta, explica com a voz e as mãos. ‘‘É um aparelho para adaptar a rolha. Antigamente, a gente entregava tudo em vidros, e se a rolha não cabia certinho, a gente apertava aqui até ficar do tamanho. Daí entrava’’, conta.
  Outro motivo de orgulho é o título, oficioso, de farmacêutico mais antigo do Paraná. ‘‘Sou o primeiro farmacêutico que continua trabalhando diariamente’’ - fato comprovado pela FOLHA, que o encontrou atrás do balcão às 11 horas. Pego
de surpresa naquele dia, lamentou apenas que estivesse vestido com seu jaleco mais simples. ‘‘Os outros são bem mais bonitos, com emblema e tudo. Esse aqui é o mais simplesinho’’.
  A construção da farmácia, explica seo Melo, foi realizada sob sua orientação direta. ‘‘A parte de cima fui eu que pensei. Fui explicando para o pedreiro, ensinando, e saiu direitinho. Embaixo ficam os remédios, e em cima o estoque’’. Já o nome da Farmácia – São Sebastião –, se fosse hoje não poderia ser adotado. ‘‘A Saúde não deixa mais registrar, diz que já tem muito nome de santo’’, conta.
  Entre tantos detalhes, até a balança pré-digital é alvo de histórias envolvendo os moradores de Alvorada. ‘‘Ganhei ela de um laboratório, há muitos anos. É tão precisa que alguns amigos da cidade às vezes vêm pesar as compras do comércio para saber se não foram enganados’’, revela.
  O repórter resolve conferir o próprio peso e brinca que, em sua opinião, ela está acusando uns quilos a mais. ‘‘Ah não, isso não, com certeza você é que andou comendo mais do que devia’’, responde, bem-humorado. E comprova a afirmação tomando duas latas de leite em pó no balcão, de 1/2 kg cada, que, colocadas sobre a balança, acusam exatamente 1 kg. ‘‘Tá vendo, essa aqui não tem erro’’, arremata, orgulhoso.

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