Um caminho diferente
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terça-feira, 19 de fevereiro de 2002
Luka Morais Reportagem Local 
Acostumada ao mesmo trajeto diário da casa à escola dos filhos, do trabalho ao supermercado e da casa dos pais ao clube, nos finais de semana a mulher não notava mais as pessoas nem a paisagem dos locais por onde passava.
A cabeça funcionava como uma máquina programada para resolver os problemas caseiros, fazer compras, agendar consultas médicas e ao dentista. No trabalho, as atividades rotineiras faziam de cada dia apenas mais um. E, toda sexta-feira, era sempre o mesmo comentário: Nossa, lá se foi mais uma semana.
Ao completar trinta anos, sentia o peso da rotina. Amargurava-se ao imaginar que poderia chegar aos quarenta sem perceber o tempo passar se continuasse tocando a vida no mesmo ritmo. E decidiu interromper o ciclo.
Foi num contato com uma amiga que separada do marido foi morar com os filhos numa cidadezinha do interior onde encontrou paz e tranquilidade ela decidiu comandar seu destino.
Insatisfeita com o trabalho desgastante, pediu as contas. Do marido, exigiu mudanças (a começar pela viagem programada há anos, passando pela transferência de responsabilidades abraçadas por ela desde o nascimento dos filhos). Aos familiares, numa conversa sem meias palavras, deixou claro o tipo de relacionamento que considerava ideal para a convivência normal, sem as costumeiras invasões.
Decidiu também retomar a ginástica e os cursos deixados de lado desde que o papel de supermãe foi assumido. E, para completar, mudou os trajetos.
Dias atrás o caminho costumeiro da casa ao shopping foi trocado por uma volta a um bairro da periferia. Velocidade reduzida, olhar atento, constatou uma forma diferente de viver. Famílias inteiras sentadas na calçada jogando conversa fora no final da tarde, crianças sorridentes soltando pipa, meninos com suas bicicletas, jovens trocando beijos no portão, casais de mãos dadas passeando pelas ruas...
Lembrou-se dos filhos trancados no apartamento, reféns da TV e dos jogos eletrônicos; dos gritos apressados para os compromissos do dia-a-dia, da falta de tempo para tudo, da impaciência, do cansaço, do mau humor, da falta de carinho, de atenção e de contato.
Diante de gente de hábitos simples, na periferia de Londrina, descobriu o sentido da vida.


