Um caminho de fé para percorrer
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quarta-feira, 25 de janeiro de 2006
Marta Ortega<br>Reportagem Local 
O dia na pacata cidade de Lunardelli (95 km ao sul de Apucarana) nem tinha amanhecido quando o grupo de peregrinos da Associação de Amigos do Caminho de Santiago de Compostela de Londrina, fundada em 16/12/2000, já estava acordado para o café. A conversa contida no meio da rua por causa da hora, não escondia a expectativa de iniciar o trajeto de 120 quilômetros, que vai terminar apenas no sábado, em Apucarana. Mochilas arrumadas, a Igreja na praça central onde se encontra um tradicional coreto foi a primeira parada. A bênção do padre, uma passada na gruta de Santa Rita de Cássia, onde a maior parte dos 4 mil moradores é devota, e todos estão prontos para o início do trajeto pelo caminho da fé.
O roteiro tem um enfoque religioso, onde os peregrinos buscam a fé e a contemplação da natureza. Depois de um breve alongamento no corpo, eles pegam o caminho de terra, amparados por cajados, tradicional acessório para longas caminhadas. A saída da cidade é acompanhada por alguns moradores que se aventuraram a acordar mais cedo, na nublada manhã de ontem que por um momento anunciou chuva pelo caminho. Apesar do tempo bom para caminhar, chapéus e protetores solares foram aliados dos integrantes do grupo, formado por 15 pessoas entre estudantes, donas de casa e profissionais liberais em busca de aventura, saúde e um encontro interior.
O trajeto previa 28 quilômetros de caminhada até a primeira parada, no distrito de Porto Ubá, em Lidianópolis, onde o grupo encontraria um ponto de apoio. A previsão eram sete horas de viagem, para só depois, almoçar e descansar para seguir viagem no dia seguinte.
São quatro dias assim. Nas paradas, os pontos de apoio são centros comunitários e igrejas, que cedem espaço para o descanso dos pergrinos. Em cada local, pequenas celebrações, como missas e saudações de boas-vindas para os aventureiros.
No caminho um carro de apoio que serve como ambulância, leva a bagagem, água e frutas, que são consumidos durante o trajeto. A próxima parada, depois de Lidianópolis é a Ponte Preta, em Borrazópolis, Fazenda Adin, em Novo Itacolomi, Palmeirinha, em Cambira e, finalmente, o Santuário de Santo Expedito em Apucarana, onde acontece uma grande celebração, comemorando também o aniversário da cidade.
Durante todo o trajeto, o encontro com a natureza é um dos principais pontos. A estrada de terra permite uma visão diferenciada, para quem está acostumado à loucura da cidade. A vista é contempladora. Campos verdes, plantações de soja, milho e café, cruzam o caminho do grupo, que se concentra no barulho dos pássaros e dos animais, encontrados pelo caminho.
Um silêncio harmonioso, que só é quebrado um pouco mais tarde com o movimento de caminhonetes e pequenos caminhões de trabalhadores rurais, que cruzam a estrada ou trabalham a enxada nas lavouras.
Na chegada a Novo Itacolomi, o percurso fica ainda mais integrado com a natureza. O grupo atravessa uma trilha na mata, aberta exclusivamente para os peregrinos. ''A idéia é buscar uma integração com a natureza e aproveitar os trajetos que temos aqui no Brasil, sem precisar sair do país em busca de caminhos distantes'', explica o coordenador do grupo, Synésio Prestes Sobrinho.
Juiz de Direito aposentado, Sobrinho é um dos principais incentivadores do grupo, e já percorreu vários roteiros de fé, inclusive o Caminho de Santiago de Compostela, na Espanha. ''Queremos montar uma estrutura para que os peregrinos possam fazer os trajetos com segurança e tranquilidade.''
O mesmo trajeto, só que no sentido inverso, foi feito no ano passado por cerca de 60 peregrinos, que saíram de Apucarana com sentido a Lunardelli. O grupo caminhou pela estrada de asfalto e atravessou o Rio Ivaí, de balsa. Este ano, os peregrinos aproveitam mais a natureza e atravessam a ponte do Rio Ivaí a pé, de onde terão uma visão privilegiada.


