A perda de um ente querido é uma situação muito delicada, principalmente quando envolve morte encefálica. A aceitação é difícil, pois as funções 'parecem' estáveis. ''A morte encefálica pode ser considerada como inversão natural das coisas. Décadas atrás, a morte era decretada quando o coração parava de bater e a pessoa parava de respirar'', explica Vladimir Garcia, neurologista que também recebe treinamento para manuseio do ecodoppler.
De acordo com Garcia, por volta dos anos 60, é que foram estabelecidos critérios para a morte encefálica. ''Isso veio a minimizar o sofrimento psicológico da família, que via um cadáver com o coração batendo. Era, e ainda é, difícil de compreender tal situação que, na verdade, é artificial.''
Conforme ele, o primeiro sintoma de que houve lesão grave no encéfalo é o aumento da pressão interna, uma reação ao trauma. A cabeça começa a inchar, fazendo com que a pressão do encéfalo fique maior que a arterial. Dessa forma, o sangue não consegue chegar à cabeça. ''A partir daí, tentamos baixar a pressão interna para conservar a circulação sanguínea. O acompanhamento é feito para descartar sintomas característicos de morte encefálica'', disse.
''Se o quadro não se alterar, começamos a fazemos vários testes como estímulos de dor, feixes de luz na pupila e ainda aspiração para provocar tosses. Se não houver nenhuma reação, há suspeita de morte encefálica'', explicou. Nesse momento, as drogas sedativas são suspensas, todos os exames clínicos repetidos e, posteriormente, dá-se abertura ao protocolo de morte encefálica.
''Seis horas após, todos os testes clínicos são novamente repetidos. E, ainda, exames complementares, como o ecodoppler, que visam diagnosticar a ausência de atividade cerebral. Toda a investigação pode levar de 12 a 24 horas, pois não será apenas um exame que vai constatar morte encefálica'', detalhou. Todas as etapas dos exames são realizadas por diferentes médicos, para que não haja qualquer margem de dúvida.
O neurologista complementa dizendo que ''o protocolo de morte encefálica no Brasil é um dos mais rigorosos do mundo. Em outros países, o diagnóstico é finalizado bem antes.'' O horário do óbito será o mesmo do término dos exames complementares que, necessariamente, devem ser impressos e constar no prontuário do paciente. (M.T.)

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