Um cachorro com vários donos e nenhum lar
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quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008
Betania Rodrigues<BR>Reportagem Local 
Um pouco de água aqui, uma vasilha de ração acolá, intercalados por sonecas à sombra das árvores e brincadeiras de rua. Esse é um dia típico na vida de Neguinha, também conhecida como Maiqueli, uma cachorra vira-lata, adotada por vários moradores do Conjunto Cafezal I (Zona Sul). Embora, na teoria, possua donos, na prática, ela figura entre os milhares de cães abandonados ou semi-domiciliados pelas ruas de Londrina. Segundo Ney Carlos Reichert, diretor do Hospital Veterinário (HV), existem - aproximadamente - 50 mil animais nesta situação.
Conforme Elisabete Aparecida de Lima, os proprietários 'oficiais' de Neguinha a enxotam de casa e os vizinhos têm dó. ''Outro dia, deixei uma caixa de papelão na calçada para protegê-la da chuva. Não fico com ela porque meu marido está se recuperando de uma cirurgia muito séria e o médico contra-indicou o contato com animais'', disse Neuza Batista, moradora nova do bairro. ''Eu também não posso porque meus filhos são alérgicos'', justifica-se rapidamente Elisabete, que alimenta a cachorra, diariamente, à beira do portão.
A comerciária Ivanilde de Souza disse que, ''se pudesse, pegaria todos os cães de rua''. Até semana passada, sua família mantinha um abrigo provisório para uma vira-lata e dez filhotinhos no terreno ao lado da residência. Segundo ela, a mãe apareceu magra e suja na sua rua. Graças aos cuidados da vizinhança, ela arribou e procriou. ''Acho que a prefeitura devia castrar esses bichos, né?'', disse a moradora do Conjunto Alto do Cafezal (Zona Sul), que, ano passado, levou quatro gatinhos siameses para casa após as súplicas das filhas. ''A sorte é que todo mundo gosta de filhotinho e, com o tempo, logo eles encontram uma família.''
Na opinião de Reichert, um Centro de Zoonoses (objetivo primordial é evitar a transmissão de doenças dos animais para os seres humanos) é a melhor solução para a cidade. Há dois anos, Londrina recebeu verba federal para executar a obra, mas a lentidão burocrática aumentou muito a contrapartida do município e inviabilizou o projeto. Neste local, os animais seriam alimentados, vacinados e encaminhados à doação. Além disso, profissionais da área desenvolveriam o programa de posse responsável, que evitaria a proliferação indiscriminada e insalubre pelas ruas da cidade.
O Departamento de Clínicas e o Hospital Veterinário da Universidade Estadual de Londrina (UEL) mantém, há cerca de dez anos, um programa de controle de natalidade para cães e gatos por meio da castrações a baixo custo. Para usufruir do serviço, o responsável pelo animal deve preencher uma ficha de inscrição no HV e esperar quase três meses. A cirurgia é realizada pelos formandos em Medicina Veterinária e custa entre R$ 30,00 e R$ 45,00 para animais com até 12 quilos.
Conforme Reichert, esse valor mal cobre a anestesia. ''É uma forma que encontramos de ensinar os alunos (supervisionados pelos professores) e, ao mesmo tempo, colaborar com a sociedade'', explicou o diretor do HV ao lembrar que este é um problema de saúde pública e não das universidades.


