Um bombeiro precisando de socorro
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sexta-feira, 12 de maio de 2006
Adriana Ito<br>Reportagem Local 
O sentimento de impotência de uma pessoa que perdeu parte dos movimentos do corpo fica imensamente maior quando não se consegue sequer amparar alguém que chora. Pior ainda se essa pessoa chorar inconformada com o descaso do poder público em relação ao próprio ''inválido''.
Diante da irmã Rosana em prantos, o bombeiro aposentado Isael Moreira Gonçalves, 35 anos, só pôde esticar o olhar preocupado. Para dizer uma palavra de consolo, precisaria da sua tabela alfanumérica na qual forma as palavras para se expressar. Isael perdeu os movimentos das pernas e parte do domínio dos braços no dia 1 de janeiro de 2003, quando um acidente de trânsito acabou com sua carreira de socorrista do Siate. Na ocasião, ele estava indo atender uma vítima de disparo de arma de fogo.
O veículo em que estavam já tinha expirado sua vida útil e deveria ter sido retirado de circulação o que talvez evitasse o acidente. Mas a irmã de Isael não está em busca dos culpados.
Rosana reclama que, desde que o socorrista foi aposentado por invalidez, tem tido dificuldades para receber o ressarcimento do tratamento médico do irmão. O Corpo de Bombeiros dispõe de recursos especificamente para esses casos, e atualmente contribui com o tratamento médico de cerca de 15 pessoas em todo o Estado. Porém, o processo é bastante burocrático: as notas fiscais são enviadas à corporação local, que a envia à central em Curitiba, que repassa para a junta médica, que encaminha para a Secretaria de Segurança Pública, que devolve para a central, que repassa o montante.
''Eu envio as notas fiscais todos os meses, mas o dinheiro demora para sair, e quando sai, é sempre em um valor inferior. Então tenho que ficar fazendo as contas, imaginando o que é que eles estão pagando'', conta a irmã. Ela afirma que está desde dezembro sem receber nenhum ressarcimento, o que a levou a atrasar o pagamento dos profissionais contratados para cuidar de Isael em até cinco meses. ''É constrangedor e vergonhoso levá-lo a um profissional sem saber até quando eles vão permitir que a gente continue o tratamento, por falta de pagamento.''
O responsável por essa remuneração, capitão Adriano Marcelo Novochadlo, explica que esse sistema é decorrente da necessidade dos órgãos públicos de prestar contas, justificar e documentar todas as operações financeiras. ''Além disso, acabamos de passar por uma mudança no setor, com a instalação do Fundo de Assistência à Saúde do Policial Militar (FAS-PM), o que deve ter atrasado as transações. Mas isso já está sendo normalizado'', relata.
Novochadlo revela, porém, que ''por mais que queira'' não há como reduzir a burocracia para acelerar o repasse. Ou seja, na história de Isael, os envolvidos também não têm total domínio dos próprios movimentos, sentindo-se impotentes diante de uma máquina chamada Estado.


