Um artista que se inspira na vida
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domingo, 11 de dezembro de 2005
Luciano Augusto<br> Reportagem Local 
''A vida humana não se define biologicamente. Permanecemos humanos enquanto existe em nós a esperança da beleza e da alegria. Morta a possibilidade de sentir alegria ou gozar a beleza, o corpo se transforma numa casca de cigarra vazia''. As palavras do escritor Rubem Alves ajudam a definir um outro artista chamado Gonçalo Borges. Nascido deficiente físico, o pintor fez questão de permanecer humano não tanto para servir de exemplo mas para comprovar que só vive quem não se entrega.
A vida começou para ele num dia oito de janeiro de 1952. O menino veio ao mundo pelas mãos da avó, já que na fazenda onde sua família vivia, na zona rural da cidade paulista de Novo Horizonte, não havia recursos médicos. Por causa de uma rubéola contraída pela mãe durante a gravidez, o menino nasceu com os braços atrofiados, uma questão de ''design genético'' como ele classifica em sua página na Internet. Aos três anos, em busca de tratamento especializado, mudou-se com a família para São Paulo.
Na metrópole, ele viveu as dificuldades de ser um portador de deficiência física num mundo onde diferenças dessa ordem ainda alimentam preconceitos e segregação. Não conseguiu ingressar na escola tradicional. Diretoras e professoras não entendiam como um menino com deformação nos braços poderia segurar um lápis, escrever uma frase, folhear um livro. Nem por isso deixou de ter alegria. ''Com seis anos, eu era um garoto extremamente agitado. Fui arteiro antes de ser artista'', brinca. Gonçalo diz que a mãe não se desencantava com os seguidos ''nãos'' que recebia e a perseverança acabou tendo resultado. Aos oito anos, conseguiu lugar em um centro de reabilitação e ali teve acesso ao mundo das coisas.
Na instituição aprendeu datilografia, fez cursos diversos, produziu artesanato, cursou o ensino regular. Tudo usando apenas a boca ou os pés. E no mesmo lugar foi apresentado às artes plásticas. Na pintura, encontrou as cores necessárias para pintar seu futuro, sempre com a mesma alegria dos tempos de infância. ''Como convivia com muitas pessoas, não sentia que a deficiência era um limite para mim'', aponta o artista. O pincel e a palheta lhe abriram portas que o levaram a ter seu talento como pintor reconhecido por uma associação que reúne pintores que trabalham com a boca e com os pés.
E não parou mais. Trabalhou para agências de publicidade, continuou sua instrução cursou comunicação social e escola de Belas Artes , instaurou a polêmica ao adaptar um sistema que lhe permitia dirigir automóveis. ''Hoje faço até trilha'', afirma.
Seu entusiasmo pela vida também fez com que, há 11 anos, passasse a ser chamado para dar palestras e falar sobre motivação. Em Londrina, por exemplo, ele esteve justamente para isso: para mostrar para funcionários da indústria Aesa, de Cambé, que potencial e capacidade não são privilégios apenas de alguns. ''O mundo moderno está cada dia mais exigente e cobrando mais das pessoas e é preciso motivação para descobrir que se pode acreditar em si mesmo'', ensina. Sobre sua situação, Gonçalo tem uma opinião bem particular: ''Não é a lei que vai proteger o portador de deficiência. É a consciência''. Quem quiser saber mais sobre Gonçalo Borges pode acessar sua página na Internet (www.goncaloborges.com.br).


