Existem pessoas que não tem direito, sequer, ao nome. Uma gama imensa de ''sem-nome'' se proliferam por nossas ruas. Não se consegue enxergá-los. Mas eles estão ali. Distantes o suficiente para não incomodar o próximo. Há cinco meses morreu em Ibaiti o ''Cheiroso'', um homem que, de acordo com os moradores, perambulava pela cidade desde a década de 80.
O andarilho foi encontrado, já morto, embaixo de um banco de praça. Vestia duas camisetas e nos pés um par de chinelos pretos. Não havia cobertores, blusas, gorros ou luvas. Era um dia de muito frio, quando foram registradas as menores temperaturas do ano. O corpo foi encaminhado no mesmo dia para o IML (Instituto Médico-Legal) de Jacarezinho. O laudo da necrópsia atestou que morreu por causa de complicações pulmonares causada por uma pneumonia.
Nenhum parente foi localizado. De acordo com alguns moradores, ele não nasceu na rua. Disseram que em outras épocas até trabalhou na cidade. Como fazia algum tempo, as pessoas não se recordavam em que ofício. As pessoas, sequer, se lembraram do seu nome. Naquela noite, como era de costume, ninguém o viu. Não existe nenhum registro de que o procuraram. Nenhuma campanha ou discurso o socorreu. Ele morreu durante a madrugada de uma sexta e foi considerado indigente. Não havia nenhuma flor, velas ou cortejo, muito menos, lágrimas.
A vida de ''Cheiroso'', preenchida por ''ausências'', se resumia a um laudo de necrópsia, arquivado em uma delegacia. Ao contrário da maioria das pessoas, que passam a existir com a certidão de nascimento, ele passou a existir com a certidão de óbito. O único registro deste homem que teve uma morte natural, embaixo de um banco de praça, em um pequena cidade do interior, era o próprio óbito. Tempos mais tarde, descobriu-se que o indigente, além de um número em uma estatística, se chamava João Pereira. Enfim, o ''Cheiroso'' teve, ao menos, direito a ser reconhecido pelo nome, apesar disso ter acontecido somente após sua morte.

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