UM ANO DE REPORTAGENS EM UMA PÁGINA
PUBLICAÇÃO
sábado, 31 de dezembro de 2005
Phoenix Finardi<br> Reportagem Local 
Quem trabalha com jornal sabe que notícia é coisa efêmera. Cada dia traz novos acontecimentos, fatos inéditos, matérias mais importantes. E o resultado de horas de trabalho, cuidadosamente planejado e arrumado em dezenas de páginas, dura apenas algumas horas. No dia seguinte, a edição de ontem já foi para o lixo ou está forrando assoalhos de carros e casinhas de cachorro.
Por isso, antes do ano terminar, fizemos uma visita ao arquivo e mergulhamos nos livrões para relembrar algumas das melhores reportagens feitas pelo pessoal do Caderno Cidades em 2005. Engraçado como a gente nem lembrava mais de tanta coisa importante que aconteceu em Londrina e na região nestes últimos doze meses.
Enquanto nossas mãos iam ficando manchadas da tinta preta, as anotações se avolumavam; histórias emocionantes, como a do casal londrinense, pais biológicos da pequena Giovanna, que conseguiram pela primeira vez no País o direito de registrar a filha gerada no útero de uma outra mulher; ou de aventuras como a do motociclista Julio Lima, que percorreu 13 mil quilômetros de motocicleta até a Terra do Fogo, no extremo sul da Argentina; alertas contra doenças insidiosas como a hepatite C ou a febre amarela e séries especiais como a que fez um retrato da situação da malha ferroviária do Paraná.
No final, o bloco ficou cheio de anotações e constatamos o que já imaginávamos: colocar um ano em uma página é coisa complicada, até para jornalista. Enfim, o que você vai ver é só um pouquinho do que a gente fez neste ano que acabou; o suficiente para que nós possamos, juntos, dar aquela última olhada para trás antes de encarar 2006, que a gente espera, seja um ano cheio de boas notícias.
JANEIRO
Velhas doenças e aventuras
- O matuto Jeca Tatu, de Monteiro Lobato, é o personagem da matéria que mostra que atraso e pobreza ainda fazem parte do Brasil do Século XXI. Doenças como verminoses, diarréias e esquistossomose maltratam os londrinenses.
- Em forma de diário, o londrinense Julio Lima narra sua viagem rumo à Terra do Fogo, uma aventura de 13 mil quilômetros percorridos de motocicleta até Ushuaya, no extremo sul da
Argentina.
- Outra série publicada em janeiro foi sobre a violência urbana e o envolvimento de crianças e adolescentes com o crime. As matérias mostraram a falta de perspectivas dos jovens e a angústia e impotência das autoridades para lidar com o problema.
- Repórter da Folha passa uma semana no Centro Integrado de Atendimento ao Adolescente Infrator (Ciaadi) para saber o que pensam, como vivem os menores delinqüentes. No texto, relatos pungentes e chocantes de uma realidade cheia de violência, insegurança e carência.
FEVEREIRO
Trilhos do Paraná
- Equipe de repórteres e fotógrafos da Folha percorrem os trilhos do Paraná, desde a Serra do Mar até a Região Metropolitana de Curitiba, até o maior entroncamento rodoferroviário da América Latina em Ponta Grossa. A série de reportagens exigiu dois meses de levantamentos, com a colaboração da América Latina Logística (ALL). O olhar atento dos repórteres, as fotografias e entrevistas com maconfirmam a falta de manutenção e a insegurança de um dos patrimônios públicos e históricos do Estado. Menos de um mês depois da série, locomotivas batem de frente em Maringá. Maquinista fica presos nas ferragens e morre no acidente.
- As favelas se multiplicam em Londrina. Um quinto da população da cidade mora em assentamentos, muitos sem água ou luz. Invasões em terrenos públicos e fundos de vale preocupam moradores.
MARÇO
Doença silenciosa
- A violência protegida pela impunidade. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) completa 15 anos mas os casos de agressões contra crianças continuam chocando a
sociedade.
- A hepatite C, uma doença silenciosa, já tem 500 milhões de infectados no mundo, um número maior que o da Aids. Especialistas se preocupam com as subnotificações e o custo do tratamento: 2 mil reais por mês.
- Primeiro caso de dengue do ano em Londrina. A doença é constatada em uma mulher de 27 anos, moradora do Jardim Sumaré, na Zona Oeste. De acordo com a Secretaria Municipal de Saúde, o ano terminou com 10 casos registrados de dengue, dos quais 6 importados e 4 autóctones.
- Na série especial de reportagens sobre ex-ilhéus de Ilha Grande, a Folha mostrou o drama de 3 mil famílias que estão há quase 8 anos esperando indenização. Elas foram desalojadas para a criação do Parque Nacional. A maioria vive na periferia, em situação crítica.
ABRIL
Faxineiros de túmulos
- Apae dá aula de cidadania no cemitério de Jaguapitã. Alunos usam escovas, sabão e muito bom humor para se preparar para uma função pouco comum - a de faxineiros de
túmulos.
- Petróleo brota em poço no norte pioneiro. O óleo estava a dois metros da superfície. A perfuração, feita pela Sanepar em Joaquim Távora, custou 40 mil reais. O achado foi por acaso já que o poço era para fornecer água potável. O local virou ponto turístico.
- Reportagem exclusiva alerta sobre a ameaça que a febre amarela representa para as cidades. Cientistas paranaenses tentam bloquear o aparecimento da doença na forma urbana através de pesquisa com macacos hospedeiros do vírus silvestre.
MAIO
Preconceito e morte
- A música transforma uma comunidade carente. Um projeto que começou de maneira informal atende mais de cem pessoas no Jardim Nossa Senhora da Paz (Zona Oeste), um dos bairros que mais sofreram com a violência na cidade. Voluntários ensinam os primeiros acordes para os moradores, que descobrem a cidadania.
- É melhor morrer em casa. Reportagem mostra que Londrina é o único município do Estado com internação domiciliar pelo SUS. Cresce cada vez mais o número de pessoas que preferem essa solução em casos de doença terminal.
- Explode o escândalo do Orkut. Residentes do Hospital Universitário (HU) divulgam mensagens racistas na internet, agredindo funcionários, pacientes e professores do hospital. O caso ganhou repercussão nacional.
- Cavaleiros em procissão por Santa Rita. Durante a oitava romaria pela santa das causas impossíveis, devotos percorrem 76 quilômetros entre os santuários de Barbosa Ferraz e Lunardelli. Histórias de gente simples como o lavrador José Leodino de Jesus, de 74 anos, que diz ter
tido uma visão com a santa.
- As crianças que ninguém quer. Orfãs ou abandonadas, elas são preteridas pela cor da pele, sexo, idade ou problemas de saúde. Emoção na história de Ana Vitória, de 3 anos, que tem paralisia cerebral e foi adotada por um casal.
JUNHO
Cidade do barulho
- Na mesma edição, duas histórias de maternidade; uma mãe chora na detenção do filho adolescente suspeito de tráfico. Na página ao lado, Ana Ferreira Cordeiro, 97 anos, morre em ivaiporã 35 min depois de reencontrar o filho, que não via há 50 anos.
- Cidade do barulho. Em Londrina, silência é coisa rara. Moradores são obrigados a conviver com o desrespeito e o abuso.
- A saga dos romeiros no Santuário de Aparecida. A Folha acompanha grupo de fiéis durante viagem de sacrifícios físicos e espirituais em busca de uma graça.
JULHO
Luta pela vida
- Série de reportagens mostra a relação carregada de conflitos e a integração dos paranaenses com o rio Tibagi, que corta o Estado num percurso de 550 quilômetros.
- Recompensa e dificuldades na rotina da Guarda Mirim. A Instituição comemora 40 anos em Londrina e já encaminhou milhares de garotos para o mercado de trabalho.
- Uma festa de aniversário especial comemora o primeiro ano dos gêmeos Caio e Gabriela, que nasceram prematuros de 6 meses e deram um exemplo de força e coragem, lutando pela vida.
- O sonho de ser mãe com a barriga de outra. Uma decisão inédita da Justiça dá aos pais biológicos o direito de registrar criança nascida de mulher sem laço familiar. Ricardo e Denise esperaram 15 anos pela pequena Giovanna.
AGOSTO
Flores contra o preconceito
- Flores para combater o preconceito. Alunos da Apae de 4 municípios se profissionalizam em projeto que ensina a cultivar espécies ornamentais.
- No dia 18, a Folha publica matéria sobre o Aquífero Guarani, que abastecerá Londrina em 2006. Segundo a Sanepar, a produção de 3 novos poços será suficiente para uma população de 132 mil pessoas. No dia seguinte, a seca provoca racionamento em Jandaia do Sul, onde não chovia há 6 meses. Cidade enfrenta surto de diarréia por causa do lodo no fundos das caixas de água.
- Crianças deixam de estudar por falta de escola. Onze bairros da Zona Oeste de Londrina convivem com o
problema.
SETEMBRO
Água na boca
- Garoto de 12 anos salva o tio de morrer afogado. Fato aconteceu numa pescaria de domingo, na
represa de Primeiro
de Maio.
- Felizes para sempre. Na idade em que muita gente pensa estar no fim da vida, os noivos Otaviano, de 84 anos e Francisca, de 81, fazem planos para o futuro. Casamento aconteceu no dia 24, com apoio das duas famílias.
- Receita de fé e amor para uma vida longa. Comemorando 100 anos sem nunca ter ficado doente, Meton Araújo continua trabalhando e vivendo de forma simples e generosa.
- Espetinho domina happy hour londrinense. Por toda a cidade, grelhas colocadas nas calçadas fazem o cheiro bom de carne assada se espalhar e atiçar o apetite.
OUTUBRO
Vidas indefesas
- Pobres de Londrina recebem 2 milhões por mês. Programas sociais ajudam 14 mil famílias mas não conseguem mudar a vida de todos. Para sociólogo, dinheiro é esmola.
- Vidas indefesas. Série de reportagens mostra bebês ameaçados pelo vírus da Aids. Negligência e desinformação são risco de transmissão da doença de mães infectadas para filhos.
- Brasileiros evangelizam a África. Organização internacional evangélica com sede em Londrina prepara missionários e voluntários para ajudar países pobres.
- Sob indignação e indiferença, Coreto é demolido. Inaugurado em 1991, atração acabou virando mocó durante a noite.
- Quilombolas numa saga pela liberdade. Reportagem da Folha narra, em 3 episódios, o drama e a esperança de um grupo de descendentes de escravos para reconquistar o direito ao chão e à cultura.
NOVEMBRO
Risco de epidemia
- Retratos de uma sociedade doente. Em menos de 12 horas, Londrina exibe dois latrocínios, um assassinato banal e uma tentativa de linchamento.
- Mulher morre presa na janela de casa. Katsuko Takei, uma aposentada de 57 anos, foi encontrada morta no jardim Novo Bandeirantes, em Cambé, onde morava há 10 anos. A chave quebrou na porta, ela tentou entrar pelo vitrô, ficou presa e morreu asfixiada.
- Menina de 11 anos é negociada por contrato. Mãe e padrasto contratam advogado para intermediar a guarda da criança para um rapaz de 22 anos, em Guarapuava. Na mesma edição, em Lupionópolis, o prefeito pede cadeia para mulher que garimpa lixo. Ela tem 10 filhos e mora no bairro mais pobre da cidade.
- Animais abandonados representam risco. Cerca de 14 mil cães e gatos perambulam pelas ruas da cidade. Sem Centro de Zoonoses, risco de epidemia é real.
DEZEMBRO
o PREÇO DA VIDA
- Setenta pessoas podem ter morrido à espera de UTI em Londrina. Número é estimativa feita pelo diretor-clínico do Hospital Universitário. Matéria da Folha provoca crise entre direção do hospital e Ministério Público, que pede relatório oficial.
- Nasce uma nova aldeia guarani. Grupo de índios invade fazenda de onde teriam sido retirados há 50 anos, em Abatiá. E morre o líder dos xetás, o índio Tiküen, um dos 8 remanescentes da tribo genuinamente
paranaense.
- Vida não tem preço. Quanto custa uma UTI? Diárias podem chegar a 25 mil reais. Preço médio é de 1.100 reais por dia. Matéria foi feita depois que a Folha noticiou a morte da aposentada Ana Lanza, 78 anos, enquanto esperava por uma vaga no Pronto-Socorro do HU, dia 6 de dezembro.
- Recém-nascida é abandonada em uma plantação de soja em Nova Aurora. Natália foi salva na tarde de Natal por um mecânico que ouviu o choro do bebê.


