Um alerta para jovens infratores
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terça-feira, 26 de fevereiro de 2008
Mariana Guerin<br> Reportagem Local 
Há dois anos, a biomédica Gilda Rossinholi se aposentou, depois de mais de três décadas trabalhando como professora doutora em patologia na Universidade Estadual de Londrina. Para aproveitar o tempo livre, ela resolveu criar um projeto voluntário com o intuito de ajudar jovens infratores dos centros de socioeducação (Cense) I e II de Londrina, os antigos Ciaadi e Educandário.
Desde março do ano passado ela prepara palestras semanais para os adolescentes sobre temas relacionados a drogas e sexualidade. O enfoque é técnico, já que são discutidos os malefícios à saúde e não as implicações sociais do tráfico. O contato direto com os jovens, a linguagem simples e o uso de imagens chocantes do mundo das drogas é o que faz das aulas um sucesso de participação e resultado.
Os grupos são pequenos, explica Gilda, para facilitar o aprendizado. No Cense I, as turmas são formadas por oito alunos e no Cense II por quatro jovens. Gilda intercala os meses entre as duas unidades para assim discutir os vários assuntos com todos os apreendidos nos três encontros semanais.
Antes de iniciar o projeto, Gilda treinou também a equipe de trabalho do centros de socioeducação. ''A idéia é uniformizar a linguagem, assim o jovem que não se sentir à vontade para falar durante as palestras pode conversar com o educador, que levará a demanda à professora'', justificou Jorge Igarashi, diretor do Cense II.
Como já havia feito um trabalho com adolescentes da rede pública de ensino, quando discutiu o tema alcoolismo em um projeto de extensão da UEL, Gilda já tinha experiência com o público a que se dispôs a ajudar gratuitamente. ''A única diferença é que agora trabalho com infratores.''
Nas palestras, ela já falou sobre álcool, maconha, cocaína e crack e este ano, a temática será doenças sexualmente transmissíveis e Aids, ''demanda levantada pelos próprios jovens'', contou Gilda, reforçando que o enfoque das aulas é fisiopatológico.
''Os meninos conhecem apenas o risco da apreensão e o risco da morte pela dívida e pela guerra do tráfico. Eles não tinham noção dos danos físicos da droga'', comentou o diretor do Cense I, Alex Sandro da Silva. Segundo ele, a maioria dos meninos apreendidos já é pai e as meninas desconhecem os efeitos do uso das drogas na gravidez. ''Eles carecem de informação.''
Conforme Gilda Rossinholi, a droga sempre permeia a discussão dos demais temas, como uso de preservativo e gravidez precoce. Apesar da abordagem ser ligada à saúde, ela percebeu variáveis comportamentais como o fato de a maioria dos infratores ser usuária de maconha e que a cocaína é uma droga ''elitizada''.
''Outro dado curioso é que os usuários de crack são discriminados entre os próprios infratores. Normalmente eles apresentam lesões no cérebro e por isso ficam noiados. E os jovens temem os noiados porque eles podem entregá-los para a polícia'', informou a professora, que também percebeu sequelas físicas entre os usuários de cocaína, principalmente na formação nasal.
''O adolescente é imediatista. Se ele usa maconha hoje e não se sente mal, acha que não é prejudicial. As imagens terminais ajudam o jovem a visualizar o dano que a droga causa a longo prazo'', opinou Alex Sandro da Silva.
Para a professora, a resposta prática das aulas é o interesse demonstrado pelos alunos durante as palestras. ''Minha missão é informar aqui dentro para permitir que eles escolham certo lá fora'', concluiu Gilda, que está pleiteando junto à Secretaria da Criança e Juventude do Paraná um subsídio para a compra do material didático do curso.
Que o diga o adolescente Fábio (nome fictício), de 18 anos. Apreendido no Cense II, ele desconhecia os males da maconha para a saúde e nas atitudes do usuário. ''As aulas ajudam. Se a gente não sabe de nada, continua usando droga. Mas se aprende o mal que ela faz, a conscientização é maior.''
Para o jovem, a cena do bebê gerado por uma mãe viciada chocou mais que as fotos da degradação causada pelo crack. ''A mulher sonha em ter um filho e quando tem, nasce doente. É horrível'', declarou Fábio. Segundo ele, a maioria dos internos não acredita que chegou na ressocialização por causa da droga. ''Mas se for ver, é a droga que causa todo o mal das nossas vidas.''


