UFPR não preenche cotas para negros
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 13 de janeiro de 2005
Andréa Bordinhão<br> Equipe da Folha 
Curitiba - Mesmo não tendo preenchido todas as vagas reservadas para a cota de negros, a Universidade Federal do Paraná (UFPR) considerou o novo vestibular um sucesso. Na lista dos 4.144 aprovados no vestibular da Universidade, divulgada ontem, 573 são negros cotistas, o que correponde 13,75% dos 20% (831) do total de vagas destinadas exclusivamente a eles. As 6,25% que sobraram foram ocupadas por outros alunos que concorreram fora das cotas. Já as 831 vagas oferecidas para cotistas provenientes do ensino público foram preenchidas; mais 99 alunos do ensino público entraram por mérito, sem precisar das vagas reservadas, somando 930 alunos dessa categria aprovados no vestibular.
''Atingimos nosso objetivo de inclusão social e com certeza mudamos um pouco o perfil do calouro da UFPR. E fizemos isso com responsabilidade, já que a primeira fase não teve cotas. Portanto, entrou quem estava capacitado'', comemorou o reitor da UFPR, Carlos Augusto Moreira Júnior. Para eles, os números desse vestibular indicam que a iniciativa deve continuar. Moreira Júnior apontou que a idade dos candidatos subiu e também houve uma maior inclusão de pessoas da região metropolitana de Curitiba, o que significa que ''o pessoal da periferia teve mais acesso dessa vez.''
Entre o total de aprovados, 22% têm mais de 21 anos e 6,4% reside na Região Metropolitana de Curitiba. Porém, entre os cotistas, 33,6% dos calouros oriundos de escolas públicas têm mais de 21 anos e 21,2% é da RMC. Já entre os negros, 37,9% têm mais de 21 anos e 16,6% mora na região metropolitana. A UFPR preferiu não divulgar nem os nomes e nem o desempenho dos cotistas para preservá-los de uma eventual discriminação.
A Universidade divulgou, no entanto, um breve perfil dos candidatos em geral e cotistas. Entre as informações, que foram respondidas pelos vestibulandos no dia da prova, destaca-se a renda familiar. Do total da concorrência geral, 19,71% (o maior índice) declararam que a família tem renda mensal acima de R$ 5 mil. Entre os candidatos que não entraram pelo sistema de cotas, 63% têm renda familiar mensal acima de R$ 2 mil. Já entre os cotistas negros, 27,05% (maior índice), alegaram ter renda familiar mensal entre R$ 500 e R$ 1 mil. Do total de cotistas afro-descendentes, 30% afirmaram ter renda mensal familiar acima de R$ 2 mil. Entre os alunos de escolas públicas, 29,57% (também o maior índice) afirmaram ter renda mensal de R$ 500 a R$ 1 mil. Quase 22% dos cotistas oriundos de escolas públicas alegaram ter renda acima de R$ 2 mil.
O presidente do Instituto Afro-Brasileiro do Paraná, Saul Dorval da Silva, afirmou, em relação aos cotistas afro-descendentes que têm renda acima de R$ 2 mil, que defende a idéia de quem pode pagar deve cursar uma universiade privada. Quanto ao não preenchimento das cotas, Silva culpa o procurador do Ministério Público (MP) federal, Pedro Paulo Reinaldin, por ter entrado com uma ação na Justiça contra as cotas. ''Ele fez um deserviço para a sociedade a qual ele tem obrigação de proteger, colocando medo na comunidade afro-descendente'', afirmou.
Moreira Júnior não acredita na possibilidade dos cotistas, em especial os negros (já que os nomes dos cotistas não serão divulgados), sofrerem preconceito. ''O preconceito é uma barreira que vai precisar ser derrubada'', afirmou. Este ano, a UFPR implantou o trote humano, que visa coibir constragimentos e violência contras os calouros. Para auxilar, a Universiade criou um número de telefone (0800-6438377) para quem quiser denunciar qualquer abuso. O número ficará vigente até as primeiras semanas de aula e, segundo o reitor, poderá ser usado também para quem quiser denunciar atos discriminatórios.
Serviço: A lista dos aprovados pode ser conferida no site www.bonde.com.br. As matrículas dos novos calouros vão do dia 27 de janeiro a 2 de fevereiro, conforme o curso. Mais informações, como a documentação necessária, podem ser obtidas no site www.ufpr.br.


