Tutelar diz que número de menores de rua cresceu 20%
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sábado, 12 de julho de 1997
Paulo Ubiratan Londrina 
Arquivo FolhaSinal de alertaO presidente do Conselho Tutelar, Júlio Botelho: Não temos mecanismos para conter o problema O presidente do Conselho Tutelar da Criança e do Adolescente de Londrina, Júlio Botelho, diz que o problema de menores na Cidade chegou ao caos. Para ele, a situação tende a piorar se não forem tomadas medidas urgentes pelo poder público e a comunidade.
Botelho denuncia: A população de crianças e adolescentes vivendo nas ruas da Cidade aumentou em mais de 20%. O percentual vai aumentar cada vez mais se não houver providências imediatas. Não temos mecanismos para conter o problema. E o que existia está sendo desativado.
De acordo com ele, o caos tem motivos claros. Um deles é a desativação do programa de atendimento às crianças de rua - projeto Abordagem de Rua - que era desenvolvido pela Secretaria Municipal de Ação Social.
A secretária de Ação Social, Marisa Goettel Nascimento, contestou em parte as denúncias: disse que os trabalhos realmente foram reduzidos mas não estão totalmente parados. Para compensar a redução dos atendimentos, ela afirmou que alunos do Seminário Presbiteriano estão recebendo instrução para cooperar gratuitamente nos trabalhos de abordagens aos menores de rua.
Botelho também reclama da falta de infra-estrutura no Conselho Tutelar. A entidade se perde em atender chamados, muitas vezes improcedentes, sem ter meios para investigar casos relacionados a menores de idade. Segundo ele, o órgão prestou 4.500 atendimentos de janeiro a junho deste ano, atuando com cinco conselheiros. Na maioria das vezes, nossos trabalhos junto aos menores não produzem efeitos sobre eles, porque também temos condições de dar continuidade às ações. Muitas vezes somos agredidos por isso: cria-se uma expectativa de bom atendimento e depois aparece a dura realidade. Com o acúmulo de trabalho, não temos meios nem tempo para aprofundar os trabalhos necessários aos menores problemáticos.
O presidente do Conselho cita como exemplo o Núcleo de Apoio Psicossocial à Crianca e Adolescente (Naps), cujo efetivo de profissionais foi reduzido. Ele afirma que atualmente o Naps funciona com um psiquiatra e um psicólogo. A espera para um atendimento chega a seis meses. Botelho diz que os dois profissionais se desdobram na função mas não conseguem desenvolver um bom trabalho. Eles atendem os casos de urgência e tentam dar continuidade aos tratamentos que levam mais tempo.
Botelho enfatizou que, na maioria das vezes, os casos envolvem menores viciados em drogas, vítimas de violência sexual e de agressões físicas. Nada que possa ser resolvido em um dia.
Botelho destaca outro ponto fraco das entidades que abrigam menores: o atendimento a adolescentes do sexo feminino. Tenho que pedir pelo amor de Deus aos responsáveis para que eles recebam as meninas.
Nesse ponto, a expectativa do Conselho Tutelar é de que a Secretaria de Ação Social do Município assuma os trabalhos da Casa Abrigo, doada pela Justiça há alguns meses. A casa foi sequestrada judicialmente no final do ano passado - pertencia ao traficante Benedito Clausen, hoje preso - mas até agora não foi ocupada. Conforme relata Botelho, a secretária Marisa Goettel alega que o Município não tem verbas para assumir a responsabilidade de manter a Casa Abrigo.
A casa serviria para abrigar menores viciados em drogas. Em períodos de três dias eles seriam tratados e depois encaminhados aos seus pais ou outras entidades. A secretária confirma que uma das causas para não assumir a Casa Abrigo é a falta de verba, mas também não existiria uma autorização definitiva para que o imóvel passe à responsabilidade do Município.
Em levantamento feito pelos conselheiros tutelares, o aumento de 20% não representa o contingente de menores de rua reincidentes (que são retirados da rua e depois voltam). O índice se refere a menores que saíram de casa há menos de dois anos. Os reincidentes a gente conhece. O que estamos observando são crianças e adolescentes que nunca havíamos visto pelas ruas, garante Botelho. Na maioria, os menores residem em Londrina, mas existem adolescentes vindos de Porecatu, Arapongas, Apucarana, Sarandi, Jataizinho, Bela Vista do Paraíso, Cambé, Alvorada do Sul e Ibiporã.
O presidente do Conselho Tutelar ressalta que a migração de menores para Londrina é motivada também pela falta de programa social dos municípios da região. Londrina, como uma cidade maior, passa a ser também pólo de mendicância e abrigo para os menores de rua das cidades próximas.
O Conselho também constata que os menores, além de entrar na marginalidade do furto ou do roubo, buscam trabalhar a mando dos pais. Há menores que fingem vender doces, mas são usados para a mendicância; existem os que entram na venda de cigarros contrabandeados do Paraguai; outros são empurrados para o tráfico de drogas.
Na próxima terça-feira Botelho se reunirá com o Juiz da Vara da Infância e Adolescencia, Dimas Ortêncio de Melo, para discutir a situação.


