Prefeito de Jardim diz que reverendo não respeita leis, sonega impostos e obtém documentos de forma ‘‘suspeita’’
Alessandra CamposSEM SATISFAÇÃOMárcio Monteiro, prefeito de Jardim: ‘‘No começo, eles ainda prestavam contas ao município e tínhamos conhecimento do número de turistas que estavam por aqui. Hoje, nem isso sabemos mais’’Alessandra CamposErnestida Grubert, assessora de Turismo do município: ‘‘Não nos posicionamos contra a seita. Mas é indispensável que ela respeite e se enquadre em nossas leis’’ A aparente imunidade e a impunidade de Moon preocupam autoridades da região. Ele monta seus empreendimentos sem respeitar leis, consegue documentos que geram suspeitas e não deixa um tostão de impostos para os municípios. Na lista das irregularidades, a mais grave segundo o prefeito de Jardim, Márcio Monteiro, é a sonegação de impostos.
O reverendo, que já foi condenado nos Estados Unidos por sonegação fiscal na década de 80, recebe na Fazenda Nova Esperança cerca de três mil estrangeiros por mês, segundo números da Associação para a Paz Mundial.
Autoridades acreditam que esse número possa chegar a dois mil turistas por semana. Mas a seita não paga um centavo ao município. ‘‘O fluxo de turistas de outros países, principalmente do Japão e da Coréia, é muito grande. Mas não há recolhimento de ISS (Imposto Sobre Serviço). No começo, eles ainda prestavam contas ao município e tínhamos conhecimento do número de turistas que estavam por aqui. Hoje, nem isso sabemos mais’’, afirma Monteiro.
Esta situação é grave para uma região que vive do turismo. ‘‘Na verdade, a Fazenda Nova Esperança já explora em larga escala o turismo religioso’’, comenta. Pelas contas do prefeito, o turismo ilegal feito pelo reverendo gira, por baixo, mais de US$ 9 milhões por mês. ‘‘Se calcularmos com modéstia veremos que a cidade perde cerca de R$ 200 mil ao mês’’, esclarece. O valor representa 50% da receita mensal da prefeitura.
O prefeito já chamou a Associação às falas em várias ocasiões, mas sem resultados. ‘‘Eles argumentam que os estrangeiros não são turistas mas visitantes, que eles não pagam nada pela estadia e pelos passeios que fazem por aqui e que o dinheiro que deixam são ‘‘contribuições‘‘ para a seita. Apuramos que a ‘‘contribuição’’ de cada estrangeiro é de US$ 2 mil por semana’’, conta. O prefeito e sua assessora de Turismo, Ernestina Aparecida Grubert, admitem que não têm como fiscalizar o que acontece dentro da Fazenda. ‘‘Não nos posicionamos contra a seita. Mas é indispensável que ela respeite e se enquadre em nossas leis’’, diz Ernestina.
A Fazenda da seita, localizada em um ponto privilegiado de Jardim, foi erguida sem Relatório de Impacto Ambiental (RIMA) e sem qualquer tipo de consulta aos órgãos fiscalizadores. Em 98, novamente sem consulta, foi construída uma ponte de concreto de mais cem metros de extensão sobre o Rio Miranda. Esta ponte abriu um importante acesso para a fazenda, através da rodovia Guia Lopes-Bonito.
Foi também dessa maneira, sem prestar contas à prefeitura de Jardim, que Moon construiu uma escola de ensino fundamental na sede da Fazenda. O reverendo conseguiu autorização do MEC e do Conselho Estadual de Ensino, antes mesmo de obter do município o registro público para a abertura da instituição. ‘‘O cadastro na prefeitura municipal é o primeiro passo para quem pretende implantar uma escola em qualquer cidade’’, comenta o prefeito.
No caso de Moon, o trajeto foi totalmente inverso. Primeiro, ele conseguiu autorização dos órgãos de ensino estadual e federal para a instalação da escola e só seis meses depois que ela entrou em funcionamento obteve permissão da prefeitura. ‘‘E isso só aconteceu porque soubemos que os ônibus da Associação estavam pegando alunos na cidade para estudar na Fazenda, e decidimos pedir informações sobre esta escola’’, lembra Ernestina.
De acordo com ela, a burocracia para abrir uma escola de primeiro grau não é pequena. ‘‘O processo é complicado e os dois órgãos sempre exigem o cadastro no município antes de tomar qualquer decisão. Por isso, estranhamos muito a forma como ele conseguiu montar a escola’’, diz.
A escola começou a funcionar em março deste ano. No início, era frequentada apenas por filhos de seguidores da seita. Hoje, já existem muitos alunos de outras religiões e que vivem em Jardim. ‘‘Qualquer criança pode estudar lá. Basta pagar cerca de R$ 80,00 por mês’’, afirma a assessora. Segundo ela, a escola é moderna, muito bem equipada e conta com vários professores de Jardim, que não fazem parte da seita. ‘‘É um projeto de primeiro mundo e que exigiu um alto investimento. As salas de aulas são enormes, possuem computadores e, além das matérias convencionais do currículo escolar, as crianças aprendem ballet e inglês’’, enfatiza. Em seus prospectos de divulgação, a seita promete montar uma Universidade dentro da Fazenda Nova Esperança, nos próximos anos.

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