Paulo Pegoraro
Enviado a Vera Cruz do Oeste
A Câmara de Vereadores de Vera Cruz do Oeste (56 quilômetros a oeste de Cascavel) deveria ter votado ontem a cassação do mandato do prefeito Valdeci Teixeira (PDT), 60 anos, o ‘‘Padeiro’’ – sua atividade profissional –, mas a sessão especial foi encerrada por causa de tumultos provocados por populares, que defendiam o prefeito, e agrediam moralmente os vereadores. O próprio ‘‘Padeiro’’ alegou ‘‘grave abalo emocional’’ que o impediria de se defender, e abandonou o recinto para ‘‘procurar atendimento em hospital’’.
O processo de cassação prende a atenção da maior parte dos 10,3 mil moradores de Vera Cruz do Oeste há meses. Ele se originou em decretos de suplementação orçamentária (de R$ 900 mil) publicados com numeração repetida e fora de prazos – posteriormente aos gastos efetivados –, com nova publicação em março para corrigir os erros anteriores. Dos nove vereadores, os seis de oposição conseguiram aprovar uma comissão processante e uma Comissão Parlamentar de Inquérito, alegando que o prefeito infringiu a legislação (decreto federal 201/67).
‘‘Padeiro’’ garante que houve apenas ‘‘erro técnico’’, que atribuiu a assessores, e que isso motivou ‘‘retaliação de parte dos vereadores’’, principalmente os que integram a bancada do PFL – que já lhe deu sustentação. ‘‘Eles têm sede de poder e querem tirar vantagem com a proximidade da eleição municipal’’, alegou. O processo já motivou mandados de segurança e, ontem, advogados do prefeito esperavam que o Tribunal de Justiça deferisse outro mandado impedindo a realização da sessão.
Às 11 horas, na abertura da sessão, um advogado disse à Folha que o mandado deveria sair ‘‘a qualquer momento, por isso vereadores aliados do prefeito vão prolongar a sessão’’. Como a decisão demorava (e até o final da tarde não havia saído), o mesmo advogado disse que seria usada outra ‘‘estratégia’’: o prefeito alegaria ‘‘mal-estar muito grande para deixar a sessão, e a seguir apresentaria atestado médico’’. O ‘‘grave abalo emocional’’ foi comunicado ao presidente da Câmara, Adelino Dorne (PDT), às 16 horas, pelo advogado Júlio César de Andrade, um dos defensores do prefeito.
Cerca de 300 pessoas lotavam a Câmara (70 poltronas) e a área externa, com tambores e cornetas. A maior parte xingava vereadores que defendiam a cassação. Houve pelo menos dois conflitos entre populares e policiais militares (que eram apenas 15). O abalo emocional e o tumulto foram aceitos como argumentos suficientes pelo presidente para encerrar a sessão. ‘‘Vamos discutir outra data’’, afirmou Adelino Dorne, sob protesto dos vereadores de oposição, inconformados com a alegação do prefeito.

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