O julgamento do pedreiro Ishmael Gironde, 43 anos, que deveria ter acontecido ontem, em Campo Mourão, foi adiado por falta de segurança. Minutos antes do início da sessão do júri, uma testemunha de defesa, Alci Bonfim, 45 anos, e um irmão da vítima, Pedro Nespolo, 43, trocaram socos no saguão do Fórum. A troca de agressões aconteceu no momento em que Gironde chegou ao fórum. Por falta de segurança, a juíza Mylene Rey de Assis Fogagnoli adiou o júri para o dia 30.
Gironde era agricultor em Campo Mourão em 1980, quando ocorreu o assassinato do também agricultor Alípio Nespolo, com 33 anos na época. Os dois tinham propriedades e começaram a se desentender por causa de uma erosão. Gironde se apresentou à polícia poucos dias depois. Ele confessou o crime e alegou legítima defesa. Depois, fugiu.
O caso já estava esquecido pela Justiça, mas não pelo bancário Pedro Nespolo, irmão de Alípio. Ele fez investigações e descobriu que Gironde estava morando em Campo Grande. Em junho, o bancário conseguiu um mandado de prisão itinerante com a juíza Mylene Fogagnoli e foi a Campo Grande. Ele localizou a casa de Gironde e chamou a polícia. O pedreiro foi preso sem reagir.
A confusão de ontem começou por uma falha dos policiais que escoltaram Gironde até o Fórum. O réu foi conduzido ao prédio pela porta da frente, ao invés de ingressar pelos fundos. Com isso, ele se encontrou com os familiares da vítima, o agricultor Alípio Nespolo, que foi morto com um tiro no peito e golpes de facadas, além de ser esmagado pela grade de um trator, em maio de 1980. Uma sobrinha de Alípio, Vanir Tamulis Uliana, teve um ataque de histeria quando viu Gironde chegar ao Fórum.
Com os gritos as testemunhas, que aguardavam o início do julgamento em salas separadas, foram ao saguão ver o que estava acontecendo. Foi quando Pedro e Bonfim se encontraram. Pedro pegou fotos do irmão morto e mostrou para Bonfim e disse para ele pensar bem no que iria dizer. Os dois discutiram rapidamente e iniciaram as agressões físicas. Bonfim acertou um pancada com um telefone celular na cabeça de Pedro, que ficou com a testa sangrando.
O clima ficou ainda mais tenso porque alguém, ao ver Bonfim pegando o celular, gritou que ele estaria armado. O reforço policial só chegou depois. Pedro e Bonfim tiveram que prestar depoimento na delegacia. Um acusou o outro de ter iniciado as agressões. A juíza não quis falar com a imprensa. Para os jurados que esperavam o início do júri, no entanto, ela disse que a nova sessão terá segurança reforçada.
O advogado de defesa, Robervani Pierini do Prado, não quis comentar sobre a estratégia de defesa. ‘‘Isso será surpresa’’, disse. O promotor Inácio de Carvalho Neto reafirmou ontem que vai pedir a condenação com pena superior a 12 anos de prisão. É que se a pena for menor, Gironde não deverá ficar preso. Como o homicídio ocorreu há 20 anos e foi pronunciado há 16, a pena precisa ser superior a 12 anos para que a sentença não seja considera prescrita.
‘‘O prazo de prescrição varia de acordo com a pena’’, explica o promotor. Neste caso, uma condenação a até 12 anos de prisão, a prescrição ocorre com 16 anos, tempo este que já passou. O crime ocorreu em maio de 1980 e foi pronunciado em agosto de 1984. O receio de que Gironde, mesmo condenado, possa sair livre após o julgamento, vem preocupando os familiares de Alípio. Ontem, o próprio promotor admitiu que tem medo que Gironde saia livre e acabe sendo morto.
Pedro Nespolo disse ontem que está frustrado com o desenvolvimento do caso após a prisão de Gironde. ‘‘Quando eu fui para Campo Grande para prendê-lo, fui pensando que o caso seria reaberto, que fossem feitas novas investigações e novos depoimentos, mas nada disso aconteceu’’, disse.

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