Pode-se dizer que, aos 12 anos, conseguir aquela figurinha que falta para completar um álbum é como ganhar na loteria. ''Não sei se tanto, mas é, pelo menos, como tirar nove e meio na prova'', garante David Dequech, colecionador de cromos da Copa do Mundo 2006. Ele e os colegas, todos fãs dos jogadores do mundial, não vêem a hora de completar o álbum. E é esta ansiedade generalizada que tem transformado o Brasil no segundo maior consumidor de figurinhas do mundo, perdendo apenas para a Alemanha.
De acordo com o gerente de marketing Lúcio Flávio Bante, da Panini Distribuidora, maior empresa produtora e distribuidora de álbuns no País, a expectativa é que em 2006 sejam produzidos 200 milhões de envelopes, com cinco figuras, em média, cada um. ''Desde 2003 estamos percebendo um crescimento que coloca o Brasil em posição de destaque'', afirma. Ele ainda revela que a mania também está chegando a todos os segmentos sociais. Bante explica que, tradicionalmente, as classes A, B e C sempre foram as maiores consumidoras, mas pessoas com menor poder aquisitivo também estão colecionando.
Essa mudança já pode ser percebida em Londrina, município que só perde para Curitiba em quantidade de envelopes consumidos no Paraná, segundo o gerente da distribuidora. Em qualquer região da cidade, os álbuns são febre. Thais Andrade Ferreira, 13 anos, moradora do Conjunto Novo Amparo (Zona Norte), garante que tem mais de 98 figurinhas do grupo mexicano ''Rebelde'' outra mania nacional. ''Minha avó me deu dois reais porque eu limpei a casa dela e eu já corri pra comprar mais figurinhas'', conta. Taxativamente, ela afirma que não guardaria o dinheiro para comprar outras coisas, como roupas, por exemplo: ''Quero ter todos os colantes do álbum''.
A colega dela, Patrícia de Oliveira, 10 anos, confessa que até já trocou um pedaço de bolo pelos ''rebeldes''. Enquanto a amiga mostrava os cromos, ela rapidamente disparou: ''Ei, me dá um Miguel aí!'', se referindo a um dos personagens da novelinha mexicana. Ela conta que já teve mais de 100 figuras e, quando têm muitas repetidas, sai colando pelos móveis e eletrodomésticos da casa. ''A geladeira já está cheia. E o quarto também''.
Com outra realidade social, mas com a mesma ânsia de comprar os cromos, David e os colegas, todos alunos do Colégio Universitário confessam que fazem qualquer coisa pelas inéditas: ''Eu também já troquei lanche por algumas que eu não tinha'', conta David. O colega, Eduardo Furuta, 12 anos, está na maior expectativa porque só faltam mais 17 colantes de 596 para terminar o álbum. ''Só que eu tenho umas 300 repetidas, e agora eu fico negociando'', explica.
Outro colega da turma, João Henrique Vezozzo, 12 anos, diz que não é tão ansioso quanto os amigos. ''Eu não gasto tanto dinheiro, mas adoro colecionar. Meu avô conta que tem quase todos os álbuns do campeonato brasileiro''. Pedro Tesoni, 11 anos, também é mais comedido: ''Eu gosto, mas a gente tem que saber gastar né?'', pondera, ao saber que David já gastou R$ 45,00 de uma só vez com envelopes.
Mas se a mania de colar figurinhas independe da classe social, a escolha do álbum pode ser um critério diferenciador. Entre as crianças do Conjunto Novo Amparo, por exemplo, o álbum ''Rebelde'' é unanimidade, mesmo entre meninos. Já entre os alunos do Universitário, meninos preferem a Copa do Mundo e meninas variam entre os atores da novela mexicana e outros personagens, como Barbie e Hello Kitty.

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