Dorico da SilvaTraumaNilva Maria Tsuzaki, que diz ter sido vítima de advogado desonesto: ‘Quando o reencontrei, ele não olhou para mim em nenhum momento’ Ser vítima do próprio advogado é uma experiência que deixou a modista Nilva Maria Tsuzaki, de Londrina, traumatizada. Há cerca de dois anos ela abriu uma franquia da CDI Informática em Santa Bárbara do Oeste, no interior de São Paulo, para dar aulas de línguas, informática, formação de manequins e turismo. Gastou mais de R$ 100 mil para readequação de prédio, móveis, eletrodomésticos, computadores - tudo feito com recursos próprios e pagamento à vista. A escola já estava em funcionamento, mas, como o investimento foi alto, Tsuzaki começou a passar por dificuldades financeiras. Pensou em procurar um advogado, para pedir orientação.
‘‘Lembrei que o marido de uma cliente era advogado. Liguei para ela e no mesmo dia ele foi até minha casa, onde passei toda a situação da empresa.’’ Começava aí o pesadelo da modista. O advogado se prontificou a ir até a empresa para verificar in loco qual era a situação. Depois, estranhamente, concluiu que a cliente estava ‘‘estressada’’ e pediu que ela fosse para uma fazenda descansar. Com um detalhe: ele ficaria na empresa e cuidaria de todo o negócio pessoalmente.
Nilva Tsuzaki conta que no começo estranhou a proposta, mas o advogado acabou a convencendo a ficar em casa pelo período de aproximadamente uma semana. Enquanto isso, ele tomaria conta da escola para resolver os problemas. A modista acrescenta que, na verdade, a dívida - cerca de R$ 6,8 mil, que estavam negativos no cheque especial - era pequena, mas ela acabou ficando insegura com a proposta recebida. ‘‘Nunca tinha devido nada para ninguém antes e nunca precisei de advogado’’, diz. Além de chamar o advogado, ela também deixou como garantia no banco uma perua Quantum, ano 93, que valia, na época, cerca de R$ 20 mil.
Durante a semana, conta a modista, o advogado chegava cedo na casa dela e pedia para assinar diversos papéis. ‘‘Eu queria ler, mas ele negava, dizendo que eu tinha que ter confiança no próprio advogado.’’ No mesmo período, Nilva concluiu que seria conveniente vender o automóvel e quitar a dívida. Ainda sobraria dinheiro para comprar um carro mais barato. Chegou a arrumar comprador e acertar a venda, pelo preço que queria, mas numa sexta-feira o advogado chegou na casa dela com um suposto sócio e disse que também estava interessado em comprar a Quantum. Mais uma vez, convenceu a modista que ele, como advogado dela, teria preferência. Por isso desfez o negócio com o outro comprador.
‘‘O advogado queria ficar com o carro naquele dia mesmo. Então eu tirei o manual e a chave original e entreguei o automóvel. Marquei com ele para ir ao banco na segunda-feira: ele acertaria a dívida no banco e pagaria o resto do carro. Mas aquele foi o último dia que vi esse tal advogado’’, afirma. A modista lembra que chegou a ir ao banco, mas o advogado não apareceu; ligou para casa dele, a esposa disse que o marido tinha viajado para Maceió (AL) e voltaria na quinta-feira seguinte. Não voltou.
Mas foi ainda na terça-feira da mesma semana que a modista percebeu que tinha levado um golpe. E muito maior do que ela poderia supor: além de sumir com o carro, o advogado teria encostado um caminhão na escola em Santa Bárbara, no final de semana anterior, durante à noite, e roubado tudo o que tinha na escola de informática. Desde móveis, computadores, documentos, livros, carteiras de escolares, até uma cozinha completa. Não sobraram nem mesmo as notas de compra dos equipamentos, todas no nome da modista. ‘‘Me ligaram de Santa Bárbara dizendo o que tinha acontecido. O povo da cidade pensou que tivesse sido eu quem tinha feito aquilo’’, lembra.
Nilva Tsuzaki ficou traumatizada com a situação e só conseguiu procurar um outro advogado, para tratar do assunto, 30 dias depois. ‘‘O meu novo advogado conseguiu localizar o bandido no Norte do País e conseguiu dele a promessa de acertar a situação. O bandido, então, mandou para Londrina um outro profissional, amigo dele, mas que também acabou enrolando por mais dois meses’’, afirma.
A partir daí, Nival Tsuzaki chegou à conclusão de que o caso deveria ser encaminhado para a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e também para a polícia. ‘‘Dei queixa (na 10ª Subdivisão Policial de Londrina) e fiquei aguardando. Imaginei que a polícia fosse atrás dele, mas nada disso’’, lamenta a modista.
O saldo disso tudo foi o mais desanimador possível. Além de ter o automóvel e todo seu investimento na escola ser roubado da noite para o dia, a modista ainda teve que arcar com despesas de rescisão de contrato para fechar a empresa. Sem contar a dívida com o cheque especial, que aumentou. Depois disso, nem sombra do ex-advogado - até a primeira audiência na OAB de Londrina, em dezembro. ‘‘Foi quando o reencontrei pela primeira vez. E ele não olhou para mim em momento algum’’, conta.
Segundo Tsuzaki, durante a audiência o advogado de defesa contou diversas mentiras. Uma delas, ela diz, é que o filho dela tinha recebido dinheiro emprestado - cerca de R$ 15 mil - e não pagou. Detalhe: o empréstimo teria sido feito em janeiro de 96, quando o filho dela já estava trabalhando no Japão. A modista conta ainda que descobriu, posteriormente, outros processos contra seu ex-advogado no Fórum de Londrina. ‘‘Mas dentro do Fórum mesmo me disseram que ele tinha ‘esquentado’ o meu carro em Maceió e vendido. Então que Justiça é essa? Onde está a Justiça que não resolve nada?’’
Nilva Tsuzaki afirma que já perdeu as esperanças de recuperar o prejuízo que teve com o advogado. O que ela quer, agora, é no mínimo fazer um alerta para que as pessoas tomem muito cuidado na hora de contratar serviços profissionais. ‘‘Quero que o povo de Londrina conheça o problema. Mas não tenho esperança de recuperar nada. Podem me chamar para depor que eu vou, mas esperanças eu não tenho.’’
A modista conta ainda que chegou a ser ameaçada, há cerca de um ano, quando conseguiu falar com o advogado por telefone, da casa dele. ‘‘Quando eu procurava, ele nunca estava em casa. Até que um dia ele atendeu o telefone sem querer. Eu disse que estaria indo para lá naquela hora, mas ele me fez uma ameaça fortíssima. Fiquei atordoada e não tive coragem de ir.’’ Por este motivo, a modista também não quis tornar o caso público anteriormente.
‘‘Depois disso, não tive motivação nem mais para trabalhar na minha profissão, que é modismo. Agora é que eu estou me recuperando.’’ Ela lembra que, no últimos dois anos, teve que aprender a conviver com as dívidas e os problemas que herdou do episódio. ‘‘Estou passando privação. Até hoje não consegui acertar a dívida com o banco. Tudo o que eu tinha o advogado levou.’’
A Folha não conseguiu localizar o advogado que supostamente aplicou o golpe contra a modista pelo aparelho que está em nome dele na lista telefônica. Por isso - e pelo menos enquanto o caso não for julgado pela OAB - o jornal não divulgará o nome do advogado.

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