Tuca e Tião
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terça-feira, 29 de janeiro de 2002
Rosângela Vale Reportagem Local 
Abriu os olhos e lá estava Tião, com as duas patas em cima do seu peito miúdo, molhando seu rosto com as lambidas insistentes. Era assim todos os dias. Dava cinco horas da matina e a sua mãe, dona Cida, abria a porta e deixava o cachorro entrar. O vira-latas malhado de preto e branco mirava a cama comunitária onde dormiam os sete irmãos e ia direto para cima de Tuca, 7 anos, o mais velho da escadinha de filhos de dona Cida e seo João.
Despertador ambulante da criançada, Tião abaixava as orelhas e abanava o rabo, mostrando ter simpatia por todos, mas não escondia sua preferência por Tuca, companheiro de todas as horas desde aquele dia fatídico, em que encontrou o garoto desmaiado no ponto de ônibus, com chicletes espalhados pelo chão e um corte na cabeça. Lambeu a ferida, pulou sobre o peito do menino, latiu várias vezes, mas só consegui despertá-lo meia hora depois.
Já era quase noite e o susto foi grande quando Tuca viu aquele cachorro enorme e sujo ao seu lado. Mas entendeu de imediato a solidariedade canina e descobriu ali uma amizade que nunca encontrou na garotada vizinha ou nos colegas de trabalho. Os meninos que disputavam com ele a clientela nos semáforos do centro da cidade, todos maiores e mais encorpados, nunca lhe dirigiam a palavra, a não ser para expulsá-lo quando estava por perto, justificando se tratar de território demarcado.
Tuca, então, vagava de um cruzamento a outro, procurando uma brecha para oferecer suas balas e chicletes para algum motorista menos apressado. Mas raramente dava sorte. Quando conseguia se infiltrar em algum território alheio, se deparava com um hoje não. Quase nunca voltava para casa com dinheiro, para a decepção do pai desempregado, que contava o trabalho do filho para incrementar a renda obtida com bicos aqui e ali. A mãe não deixava o filho desanimar. Fica assim não Tuca. Seu anjo da guarda vai ajudar, era a ladainha que repetia todos os dias, enquanto botava na mesa aquela mistura de farinha e sei lá o que mais com gosto de nada.
Mas naquele dia meio chuvoso tudo estava diferente. Os garotos sumiram e deixaram os semáforos livres para Tuca, que vendeu quase todo o estoque do mês. No ponto de ônibus, a caminho de casa, ele só pensava no orgulho que o pai sentiria ao receber, nota após nota, R$ 15,00. Ainda imaginava a cena e a alegria da mãe, quando sentiu uma forte dor na cabeça que lhe escureceu a vista. Demorou alguns minutos para entender o que tinha acontecido. O cachorro, os chicletes espalhados... E o dinheiro, cadê? Olhou todos os bolsos, o chão, e nada.
Só chegou em casa noite alta foi embora caminhando com o corte lhe estourando os miolos. O cachorro ia ao lado, abanando o rabo e latindo, como se quizesse incentivar cada passo do garoto. A história do roubo fez o pai franzir as sobrancelhas e arrancou uma lágrima da mãe, mas no dia seguinte, Tuca sabia: teria que enfrentar as ruas de novo. De manhã, já estava a caminho do ponto, quando percebeu que o cachorro o acompanhava. Acariciou o bicho, olhou demoradamente o focinho sujo, lembrou-se da ladainha da mãe e o batizou: Tião.


