Patrícia Zanin
De Londrina
Londrina, 20 de julho, 19 horas. O ponto de encontro é a Lanchonete Brumay, na Avenida Saul Elkind, 785, zona Norte da cidade. Seis frequentadores do estabelecimento jogam truco e concordam em fazer uma pausa no jogo para falar sobre desemprego, crise, governo FHC e globalização.
Aníbal Pacheco, 40 anos, é autônomo, mas chega a ficar dois meses parado. ‘‘Quando acontece, corro para São Paulo tentar a sorte’’. Pedro Louvison, 42, também é autônomo. Trabalha como montador de elevador. Chegou a receber R$ 1,2 mil por mês, mas, hoje, para tirar R$ 800,00 ‘‘tem que trabalhar muito’’. Carlos Luiz Regiolli, 61, faz bico de pedreiro, motorista e ‘‘do que aparecer’’. Reclama de não conseguir trabalho por causa de sua idade.
Essa também é uma das queixas do pedreiro Osias Correa de Oliveira, 60. Em agosto, só conseguiu fazer três bicos, o que lhe rendeu apenas R$ 30,00. Mora com o pai, que tem casa própria. Durvalino Porto mostra a carteira de identidade para que calculemos seus 73 anos. Recebe R$ 136,00 de aposentadoria, mora em sua própria casa, mas deve um ano de IPTU. Rubesval Monteiro da Rocha Prado, 35, é servente de pedreiro desempregado. Recebia 2 salários mínimos por mês ‘‘nos bons tempos’’, como define.
Os seis reclamam do valor do salário mínimo, da falta de trabalho, do preço do gás, do ônibus, de FHC. Querem a saída do presidente da República. Acham vantagens no regime militar. Estão cansados de receber ‘‘nãos’’ na hora de procurar emprego. Termos como neoliberalismo e globalização, para eles, soam estranhos na teoria. Na prática...
Pedro Louvison – É a primeira vez que eu escuto.
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Aníbal Pacheco – É só para empresário ganhar dinheiro. Compra, vende, importa. Para o empregado, nada. Você vê, a tecnologia tirou muito emprego. A Volkswagen há 20 anos tinha 46 mil funcionários. Hoje tem 20 mil.
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Pedro – De fato, o desemprego é total. A tecnologia ajudou um pouco, mas no campo do trabalho, deixou de dar emprego. O real não serve para nada.
Rubesval Prado – Realmente piorou muito.
Carlos Regiolli – O dinheiro agora vale muito, mas para ganhar ele é que é difícil. Não tem trabalho.
Durvalino Porto se levanta e exibe uma velha nota de 500 mil cruzeiros.
Durvalino – Hoje isso não compra nem bala.
Pedro – A moeda (real) até é boa, mas está desvalorizada. Você vê: a gasolina subiu, o mercado subiu. Uma compra antes custava uns 60 reais. Hoje a mesma compra custa 200 reais e o salário é o mesmo.
Osias Correa de Oliveira – Quando saiu o real, um botijão de gás custava 3 reais. Agora custa 16, 17 reais.
Regiolli – E o salário, ó...
Rubesval – Subir seis reais o salário mínimo? Deus me perdoe, mas é sacanagem.
Pedro – O governo tinha que sair fora.
Folha – Vocês concordam?
Todos – Totalmente.
Aníbal Pacheco – Nenhum presta.
Rubesval – Mas esse é o pior. Eu até assinei aquele papel que pede a renúncia do FHC.
Regiolli – Não corre grana, não tem emprego e nem serviço.
Rubesval – Dar seis reais de aumento... O ônibus em Londrina já vai subir... É sacanagem. Lá dentro eles mandam.
Regiolli – Esse governo do FHC já deveria ter saído. E é bom que saia antes que aconteça coisa pior. Você não vê? Vão fazer greve por causa dele...
Rubesval, inconformado – Seis reais de aumento de salário...
Regiolli – Esse é o pior governo. Devia haver uma revolução, uma greve. Devia parar tudo. A fome está entrando e não tem quem guente. Roubar não pode; serviço não tem e se pedir, te chamam de vagabundo. Quem quer trabalhar não tem serviço. É por isso que nós tamos parados aqui. Não tem o que fazer. A gente sai, não acha emprego. E o salário, ó... Tem que ter justiça.
Osias – Você vê, foi colocado um negócio aqui de emprego (posto da Secretaria do Emprego e Relações do Trabalho), mas não tem emprego.
Pedro – E as indústrias vêm para cá, mas quem trabalha é o pessoal de fora.
Regiolli – Pode vir 100 indústrias para Londrina, mas traz tudo gente de fora. Não funciona.
Aníbal – E o salário em São Paulo é 800 reais. Aqui, um ajudante geral numa indústria dessas ganha 312 reais.
Rubesval – É errado vir lá de São Paulo. Ao invés de colocar um coitado como ele (aponta para Osias de Oliveira) e pagar 400, 500 reais, ele fica satisfeito. Se o cara não der certo, aí tira.
Regiolli – Agora quem tem emprego não tá nem aí. Tem gente nadando no dinheiro e nem se preocupa com os coitados.
Osias – Se nós tamo aqui jogando truco é pra disfarçar. Sair brigando por aí não dá.
Aníbal – Nenhum governo que está aí presta. No tempo dos militares era melhor. Tinha serviço, as coisas não subiam, não tinha inflação.
Osias – Tinha que tirar tudo de lá do governo e por tudo novo.
Aníbal – Militar moderno, que desse liberdade para o povo, mas que fosse duro.
Osias – Guerra, revolução, alguma coisa tem que mudar.
Aníbal – Isso se não entrar outro pior...
Osias – Vamos começar tudo de novo.
Regiolli – Presidente podia ser como administrador de fazenda: se não for bem, sai.
Aníbal – Esse Lerner também só mostra as coisas boas de Curitiba. O centro, a Ópera de Arame, mas lá tá cheio de favela...
O papo acaba. Cinco deles voltam a jogar truco. Rubesval Prado desiste. Vai para o balcão. Pede uma ‘‘branquinha’’ e não sabe a que horas vai voltar para casa.

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