Trotes prejudicam atendimento no 190
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terça-feira, 13 de junho de 2006
Adriana Ito<br>Reportagem Local 
Quem vivencia o desespero de se tornar mais uma vítima de violência em Londrina sabe quanto o tempo demora para passar até chegar o socorro. A roda-viva de sensações que um assalto ou outra forma de agressão causam, a vontade de se livrar dos fatos, dos criminosos tudo isso vai concentrando-se na angústia da espera. A pressa é elevada ao quadrado se ainda houver a chance ou ao menos a esperança de que se prendam os criminosos. Nesse caso, é mais do que justificável que a pessoa se revolte diante da demora da polícia, seja ela de 10 ou 40 minutos.
Porém, para o atendimento de emergência da Polícia Militar (PM), que atende a cerca de 100 ocorrências por dia, o problema é exatamente inverso: o tempo passa rápido demais. Durante esses preciosos minutos, os policiais podem estar atendendo a um outro chamado, com um risco iminente maior, em um outro ponto do bairro. E o pior: esse chamado pode ser falso.
Sem entrar no mérito do número de viaturas e policiais existentes na cidade (dados que a PM não tem autorização para revelar), a própria população é uma das responsáveis pela demora no atendimento. Informações imprecisas ou enganosas em relação a endereço e tipo da ocorrência muitas vezes dificultam o trabalho da polícia, que pode ter dificuldades de encontrar o local. Mas o pior mesmo são os trotes.
Segundo o tenente Ricardo Eguedis, assessor de comunicação da PM, a central de atendimento 190 em Londrina recebe 54 mil ligações por mês. Destas, a grande maioria é trote. ''Das quase 700 mil ligações que o 190 recebeu no ano passado, apenas 4.800 configuraram-se realmente em ocorrências'', contabiliza. Como consequência, a central telefônica muitas vezes fica congestionada, atrapalhando quem realmente precisa ser atendido.
De criança fazendo piadinhas a pessoas pedindo as mais diversas informações, os mais de 50 atendentes que se revezam atendendo aos telefonemas precisam ter paciência e muito jogo de cintura. ''Já teve gente que ligou de madrugada para pedir o número do telefone de uma boate'', conta.
Eguedis comenta que, sempre que possível, a PM retorna às ligações quando se trata de trotes de crianças, para alertar os pais sobre os riscos desse tipo de atitude. ''Também rastreamos as ligações e até prendemos algumas pessoas, mas nem sempre isso é possível, dada a grande quantidade desses telefonemas. Além disso, precisamos do efetivo para atender os casos reais.'' O policial lembra que a falsa comunicação é crime previsto no Código Penal. Vale ressaltar que o 190 dispõe de identificador de chamadas, e registra também a data, hora e duração dos telefonemas recebidos.
Porém, muitas vezes do outro lado da linha está alguém precisando muito mais de um ombro do que de uma viatura policial. ''Uma vez, atendi uma mulher que dizia apanhar do marido. Mas ela não queria denunciar isso, apenas desabafar e ouvir uma palavra amiga. Só isso já bastou'', narra Andresa Aparecida dos Reis, uma das atendentes do 190. Ela reclama que muitos dos telefonemas que recebe são de gente com o celular no bolso, que aciona o 190 sem perceber. Pouco tempo depois de dizer isso, Andreza recebeu mais uma ligação dessas.
Nesse universo, era de se esperar que criminosos também passassem trotes para ocupar as linhas telefônicas e enganar a polícia. Como a ligação não é tarifada, muitos deles provêm inclusive de celulares pré-pagos desativados. A Polícia Militar já chegou a conseguir com a operadora o cancelamento de números telefônicos, mas alega que para chegar aos seus donos é necessário ter autorização judicial.
''É preciso que haja uma conscientização das pessoas sobre o que é e qual a importância do 190, principalmente em relação às crianças. Um garoto que aprende isso, quando adulto também não vai ficar ligando à toa'', destaca o tenente. Enquanto isso não acontece, o jeito é usar bom senso e muito jogo de cintura.


