Trote a residências é falta de educação. Trotes passados a telefones como o do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) de Londrina representam muito mais do que isso: eles podem fazer a diferença entre a vida e a morte de um ser humano. Mas muita gente ainda não se deu conta disso, a julgar pelas estatísticas: só no mês passado, o Samu recebeu exatos 2 mil trotes. Nos seis últimos meses, foram 11.771.
As ligações inúteis se repetem até 100 vezes por dia e comprometem o trabalho dos atendentes e socorristas, que já têm dificuldade para dar conta da demanda incessante, em todas as regiões da cidade, com apenas seis ambulâncias - ou menos, já que sempre elas precisam de reparos. Na central, o Samu dispõe de somente quatro atendentes - os chamados técnicos-auxiliares de regulação - que se desdobram em seis linhas telefônicas e atendem entre 1,3 mil e 1,5 mil ligações por dia.
''As pessoas ligam para falar palavrões, ofendem, ficam mudos. Pior é quando elas inventam que há um paciente tendo um ataque e, quando a ambulância chega, não encontra ninguém'', conta a atendente do Samu Telma Giorgia Beirigo. Ontem pela manhã, pouco antes de conversar com a reportagem da Folha, Telma havia acabado de acompanhar mais um exemplo de como um trote pode pôr uma vida em risco. ''Ligaram dizendo que uma gestante de 22 anos estava em trabalho de parto, perdendo muito sangue, na Avenida Leste-Oeste. A unidade se deslocou para lá e não havia ninguém. Enquanto isso, um senhor sofria um AVC (acidente vascular cerebral) na Vila Ricardo (Zona Leste). Ele podia ter morrido por causa daquele trote se a ambulância não se deslocasse a tempo'', ressalta.
A coordenadora de enfermagem do Samu, Kelen Mitie Wakassugui, acredita que a maioria dos trotes é passada por estudantes, já que os picos deste tipo de ligação ocorrem nos horários de entrada, saída e intervalos das escolas. ''Há várias ocasiões em que identificamos a origem da ligação e descobrimos que vem de dentro de uma escola. Nesse caso, ligamos para os diretores e pedimos que façam um trabalho de conscientização entre os alunos'', afirma. Kelen também lembra casos como o de um rapaz que passou dias assediando uma atendente e o de uma criança que ligou várias vezes do celular da mãe pedindo um presente para o Papai Noel.
Além dos trotes, a coordenadora aponta que a qualidade do atendimento do Samu tem sido prejudicada pelo excesso de chamados de pacientes que não se encontram em casos de urgência e emergência. ''Há muitos casos em que as pessoas mentem sobre o real quadro de saúde do paciente para conseguir uma ambulância. Aí deixamos de atender quem realmente precisa de socorro médico, porque estamos ocupados apenas em transportar uma pessoa'', lamenta. Também é comum, diz Kelen, que pessoas liguem dizendo que um andarilho está inconsciente, e depois se constate que ele estava apenas bêbado e dormindo.
''Os técnicos de regulação fazem uma série de perguntas no telefone para saber se o caso é urgente e as pessoas precisam falar a verdade. Em geral, só se deve acionar a ambulância do Samu quando houver risco de morte'', ressalta. Na dúvida, as pessoas podem telefonar ao 192 para saber sobre como proceder ou a melhor unidade de saúde para a qual se encaminhar.

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