Eram entre 250 e 300 soldados montados, vindos de Guarapuava. O primeiro vinha inteiramente coberto por uma poeira vermelha - o comandante da tropa permitiu que todos se banhassem no Igapó antes, exceto um, para que a população pudesse conferir com os próprios olhos como aquela terra roxa sabia impregnar-se na pele de quem chegava a Londrina.
O ano era 1960. Os soldados do 1º Esquadrão Independente de Cavalaria haviam passado por várias cidades e percorrido mais de 400 quilômetros, a cavalo, enfrentando o frio e a chuva do final de agosto, e finalmente chegavam ao seu destino. A tropa iria participar do desfile de 7 de setembro, na avenida Paraná, como forma de enaltecer o civismo na cidade. Mas esses jovens, na faixa dos 18 anos, queriam mesmo era conhecer o Cine Teatro Ouro Verde e a boate da Selma - cada um, a seu modo, um símbolo da riqueza gerada pelos cafezais (cuja extensão, aliás, já havia sido motivo de admiração pelo caminho).
''O Ouro Verde era o máximo das salas de cinema na época, era impossível ir a Londrina e não conhecê-lo. Já a boate da Selma ficava aberta 24 horas, e as mulheres eram escolhidas a dedo no Brasil todo. Só dava fazendeiro lá'', relembra José Maria Gracia Araújo, 67 anos, um dos integrantes da comitiva.
Araújo guardou os registros dessa empreitada em fotos e na memória, mas, não satisfeito com apenas as lembranças, resolveu refazer o caminho 48 anos depois, desta vez de moto. ''Passei pelos locais onde acampamos, encontrei pessoas que se lembravam da passagem da tropa, e até mostravam por onde passamos'', relata.
O crescimento das cidades foi a principal mudança observada pelo aventureiro. Cidadezinhas pequenas, que eram pouco mais que uma vila na época, hoje são municípios de porte médio. Londrina, então, foi a cidade que mais cresceu. ''A cidade mudou a ponto de eu não reconhecer a maior parte dos lugares, se tornou uma metrópole. Foi uma surpresa grande'', revela Araújo, que chegou a recorrer aos moradores locais, com as fotografias antigas em mãos, para descobrir o local que procurava e fazer um novo registro fotográfico. Nesta segunda viagem, ele tirou cerca de 250 fotos.
Em Londrina, ele viu com espanto que o Mercado Shangri-lá, antes em uma região isolada, agora é parte da região central da cidade. Os prédios visíveis do lago Igapó aumentaram de meia dúzia para várias dezenas. E a rua do desfile cívico agora é um extenso Calçadão. Se esse crescimento rápido é motivo de orgulho, por outro lado, tantas mudanças nem sempre são agradáveis a um viajante em busca de lembranças. ''Gosto muito das coisas do passado. Hoje a cidade está mais bonita, mas naquele tempo era mais romântico. As pessoas não tinham tanta pressa'', compara, recordando-se, nostálgico, de uma foto de um jipe na avenida São João, com uma faixa de Plínio Salgado atrás. ''Quem será Plínio Salgado?, pergunta baixinho, como se pensasse em voz alta.
Mas não foram apenas as cidades que mudaram com o passar dos anos. Araújo tornou-se decorador de interiores e escultor, mudou-se para Curitiba, Porto Seguro (BA) e agora mora em Irati, onde já foi secretário de Cultura e de Turismo. Hoje, preserva um grande acervo histórico de lá, e o utiliza para contar histórias antigas do município em um programa de rádio. Também foi casado durante 21 anos, e teve um casal de filhos. Mas o filho não serviu ao exército, o que Araújo lamenta. ''O exército é uma experiência que modifica a vida de quem está passando para a fase adulta. Dá uma visão de disciplina, de sacrifício'', comenta.
A empreitada vivida por Araújo no exército também tornou-o um aventureiro. Com sua moto, ele já foi conhecer o município homônimo Irati, em Santa Catarina, e agora pretende ir até Porto Seguro (BA). ''Naquela viagem em 1960 eu me senti fortalecido, capaz de muita coisa. Me deu autocontrole, mudou a minha forma de aceitar certas coisas. Foi uma aventura que marcou o resto da minha vida'', analisa, acrescentando que seu pai, quando serviu, atuou na Coluna Prestes, percorrendo 5 mil quilômetros a pé com as tropas, em 1924.
E ele faz questão de recomendar à juventude que não se acomode. ''A aventura faz parte da vontade de viver. Em qualquer idade. Aliás, quanto mais idade, mais a gente tem necessidade de conhecer, saber, se informar. Saia, não se acomode, porque se não você vai morrendo aos poucos'', ensina.

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