Trombetas do Apocalipse
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 24 de junho de 2002
Telma Elorza<BR>Reportagem Local 
Depois de recusar alguns convites para assistir ao jogo na casa de um ou outro amigo tô cansada, vou dormir cedo , ela se preparou como nunca para ter um boa noite de sono. Banho quente, chá de camomila e, principalmente, tampões de ouvido. Sabia que iria precisar. Jogo do Brasil na madrugada, clima de decisão e vizinhos animados, o clima era propício para não dormir. Mas estava determinada.
Para garantir, foi deitar cedo queria estar embalada e nem ouvir os rojões. Edredon, pijama e um livro nas mãos, deitou tranquila e logo dormia. Não precisou nem do livro. Acordou subitamente às 3h16, com as trombetas do Apocalipse soando nos ouvidos. O vizinho do andar de baixo, rapaz animado e com pulmões de nadador, não podia deixar ninguém esquecer o jogo. Depois de se soltar do teto, onde foi parar com o susto, ela tentou manter a educação. Calma pensa, com seus botões logo o jogo começa e ele sossega.
Mas que nada. Parecia que a participação de todos era a garantia para o Brasil ganhar. Vamos acordar, meu povo!, berrava na janela. Resignada a passar uma noite insone contra a vontade, emburrada na cama, ela escuta a TV sendo ligada na sala. Vai conferir e vê o filho adolescente esparramado no sofá. Ué, vai assistir ao jogo, mãe?, ele pergunta. Com um olhar assassino, ela avisa: Torce baixo. Pelo menos nele, ela manda.
Volta para o quarto e para seu tormento. Sai o primeiro gol da Inglaterra e o vizinho desfila todos os palavrões numa única frase. O cara é criativo, pensa. Quem sabe agora sossega, espera. Mas vem o primeiro gol do Brasil e o vizinho ganha novo fôlego. E toque trombeta. Depois mais um gol e o vizinho vai às alturas. Ela, que nem queria saber onde ficava o Japão, é obrigada a acompanhar todos os lances com narrativa exclusiva. O filho, triste, vem avisar: Expulsaram o Ronaldinho Gaúcho. E assim vão pelo resto da peleja. Ela driblando o sono, o vizinho no ataque cerrado a seus ouvidos. Até que os rojões avisam: acabou o jogo.
Depois que o grosso da comemoração passa, ela estranha o silêncio no andar de baixo. Deve ter desmaiado, de emoção ou bebedeira, especula. O filho vem dar um beijo antes de deitar. Que bom que o Brasil ganhou, né, mãe?. É, que bom, filhão. Naquele momento decide: vai aprender dançar flamenco enquanto arrasta os móveis para a faxina.


