Recentemente, a empresária Luciana Iung aproveitou uma manhã de sábado para fazer com os filhos Maria Eduarda, 4 anos, e Pedro Henrique, 2, algo que se acostumou a ver na Bélgica (país onde morou por oito anos), mas que ainda é raro por aqui: trocar objetos (como roupas, acessórios, brinquedos, livros) que estão esquecidos em casa. Luciana soube do escambo, promovido por uma loja de brinquedos, pelo jornal e achou ''superinteressante''. Para a empresária, as crianças devem aprender desde cedo a repartir.
Ela conta que sempre promove no ambiente familiar operações com o objetivo de juntar coisas que não estão sendo usadas para se transformar em doação e, assim, promover um saudável desapego entre os filhos. Mas até então isto só era feito em datas como Dia das Crianças e Natal. Agora, além das doações, as trocas devem se tornar rotina na família. ''É uma forma de ensinar solidariedade. Sempre procuro mostrar às crianças que temos uma situação privilegiada, mas que existem outras realidades.''
O psicólogo André Lopes Aricó, do Colégio Adventista, esclarece que estimular o desapego é importante sim, mas os pais devem estar atentos à época em que isso é feito. Até cerca de três anos a ligação da criança com a mãe (seu primeiro objeto de amor) ainda é muito forte e durante este período ela se utiliza de um recurso externo chamado de objeto transicional, que pode ser um brinquedo, para suportar a separação da mãe e entrar em contato com o mundo externo.
É este objeto que vai lhe dar conforto, segurança. Por isso é preciso tomar cuidado ao pedir para uma criança nesta faixa de idade se desfazer de algo. ''Tudo depende do simbolismo que ela imprime àquele objeto. Dependendo da intensidade deste simbolismo, a angústia é muito grande e é recomendável que este objeto seja retirado gradativamente da criança, pois trata-se de uma mudança fundamental para o seu psiquismo'', alerta.
O psicólogo explica que em um processo saudável de rompimento deste elo intenso entre pais e filhos, o incentivo ao desapego material deve ser feito já a partir dos cinco anos. ''Desenvolver-se significa deixar de se envolver com algumas coisas para se envolver com outras. Por isso a criança precisa aprender, depois de amadurecida psiquicamente, a se relacionar com outros objetos e a aprender que as relações sociais são muito mais importantes. E é justamente neste ponto que as trocas de brinquedos podem colaborar'', observa.
O desapego deve ser estimulado para a criança perceber que a segurança que ela tanto procura não está nos objetos, mas na troca social. ''Não está no ter, mas no ser. Essa é uma forma de termos, lá na frente, uma sociedade muito mais solidária'', argumenta.

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