A psicóloga Marta Helena Guterres diz que hoje não se faz mais luto como antigamente, quando todos se vestiam de preto e guardaram esse período. Também não se fala mais do ente querido. Embora seja algo dolorido, é necessário viver o luto. E isso se faz sofrendo, chorando, falando da pessoa, dos momentos vividos. ''Os pais precisam passar nos lugares aonde iam com os filhos, lembrar desses momentos, esvaziar a dor. É preciso isso para transformar a dor em saudade'', ensina.
Marta aponta para o fato das pessoas terem perdido esse costume de expressar a dor. Muitos têm medo de incomodar ou chocar os outros. Sem contar que depois dos primeiros dias do luto, em que sempre há muito apoio da família e dos amigos, não é raro que eles retomem suas vidas, e a pessoa fique sozinha com sua dor. ''Eles visitam durante uma semana ou duas, e depois não aparecem mais''.
Outro erro que não se deve cometer é tentar forçar a pessoa a voltar à rotina, usando argumentos como ''a vida continua'', ''bola pra frente'', ''você tem outros filhos''. Segundo Marta, devido à confusão entre tristeza e depressão, as pessoas têm medo de deixar o outro sofrer, chorar. ''A depressão é quando a pessoa se entrega totalmente, não come, não trabalha, nada mobiliza a pessoa. Nesse caso, é necessário procurar ajuda especializada, seja um médico ou psicólogo. Até então, a tristeza é normal e faz parte do processo de recuperação''.
Outro ponto importante no processo do luto é a culpa. ''Na medida em que a gente perde, aparece a culpa, em mim e no outro'', afirma Marta. Essa culpa surge pela dificuldade de aceitar a perda, de aceitar que não podemos tudo, é um sentimento de impotência. ''Os pais ficam se perguntando: - e se eu não tivesse deixado ele sair, se não tivesse emprestado o carro? - e isso não adianta. Perder sempre é difícil, o ser humano quer ter tudo''.
Quando a perda envolve violência, como no caso de um assassinato, por exemplo, ela pode mobilizar a pessoa em busca de justiça. Muitas vezes isso se torna uma obsessão, ou atrapalha o próprio luto. Algumas pessoas às vezes preferem mudar de cidade, de casa, o que serve apenas para tentar negar a falta do ser amado. ''A pessoa precisa se colocar em contato consigo mesma'', aconselha Marta.
Ela também condena um outro costume moderno: o de não permitir que crianças participem de enterros e velório. ''É necessário que elas também se despeçam da mãe, do pai. A criança precisa saber o que aconteceu, senão pode criar a impressão de que a mãe ou pai a abandonou, que não gosta mais dela''.
No entanto, talvez a coisa mais importante diante da morte, segundo Marta, seja o resgate da solidariedade. ''Precisamos ouvir a dor do outro. Esse mandamento contemporâneo de que a gente tem que ser feliz o tempo todo, pensando só em si mesmo, não ajuda ninguém''.(E.G.)

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