Passados quase três meses da forte chuva que assolou Londrina, causando estragos em todas as regiões, com a destruição de pontes, trechos de avenidas, tubulações pluviais e queda de placas e muros, além do alagamento em estabelecimentos comerciais, casas e escolas, a reportagem da FOLHA voltou a alguns locais atingidos para conversar com moradores. Eles ainda se recuperam dos prejuízos financeiros e do abalo emocional de ver a chuva arrastando veículos, móveis e eletrodomésticos.
''Perdi meu computador, impressora, estante e muitos livros. Acredito que o prejuízo deve chegar a uns R$ 5 mil'', conta a aposentada Nilza Araújo Frei, moradora da Rua Joaquim Matos Barreto, localizada bem em frente ao aterro do Lago Igapó, no Jardim Maringá (Zona Oeste). ''Apesar dos prejuízos financeiros, o que mais deixa a gente triste é a perda de todos os meus livros que eu tinha na estante há tantos anos. Não tive tempo de salvar nada, com meia hora de chuva, já vi minha sala inundada com o nível da água chegando a um metro e meio de altura.''
Nilza conta que morando há cerca de 15 anos no local e mesmo observando o nível da água sempre subir, devido ao entupimentos do bueiros do bairro, nunca tinha presenciado qualquer transbordamento como o ocorrido no dia 15 de outubro de 2011.
''O problema aqui é antigo. A gente sabe que as coisas não se resolvem, porque, na verdade, não há interesse, mas não imaginávamos que o problema poderia tomar proporções como as que tomaram'', acrescenta a vendedora Lúcia Nogueira, moradora do bairro há quatro anos.
''Apesar da água não ter atingido os móveis da minha casa, porque ela fica em um ponto mais alto, minha família fica muito apreensiva, porque sabemos o que pode acontecer nos próximos dias'', destaca Lúcia. ''Sempre chove muito nos meses de janeiro e fevereiro e aqui as bocas de lobo continuam entupidas.''
Para a comerciante Terezinha Aparecida Santana, dona de uma estabelecimento comercial, localizado também em frente ao aterro e moradora do bairro há 22 anos, o prejuízo com a perda dos dois freezers e um balcão chega a R$ 8 mil. ''Ainda não consegui substituí-los. A gente compra as coisas com tanto esforço e de repente vê tudo sendo arrastado pela água'', emociona-se.
Mudança
Sem condições de continuar morando na mesma casa alugada, localizada na Joaquim Matos Barreto, após a enchente, a professora de espanhol Graciela Anóbile revela que teve que enfrentar uma dor ainda maior - além da perda de todos: o distanciamento de um dos filhos.
''Voltamos para a casa depois de uma semana. Mas um dos meus meninos não pôde ficar com a gente, porque ele começou a sofrer com crises de alergia'', conta Graciela. ''Ele foi morar com o pai e somente na semana passada, com a mudança para a nova casa no São Fernando, que ele voltou a ficar conosco. Foi um período muito difícil para todos nós.''
''Muitas pessoas dizem: o importante é que ninguém se feriu, bens materiais você recupera; mas não consideram como é humilhante você não ter mais nada de uma hora para outra, se sentir empurrado de uma casa que você passou mais de 10 anos de sua vida e viu seus filhos crescerem'', acrescenta a professora. ''Foi muito traumático passar por uma situação como essa longe de seus familiares e ainda não receber nehum tipo de auxílio de quem tinha por obrigação ver como estávamos ou do que precisávamos. Foi graças a ajuda de vizinhos e amigos queridos que estamos nos reerguendo aos poucos e vamos conseguir superar isso.''

mockup