Mauricio Della Barba
De Londrina
No meio do nada. Assim foi criado o Três Marcos, um bairro no extremo-sul de Londrina, que já serviu como ponto de referência para os mais perdidos. A história deste pequeno bairro – que conta apenas com três ruas e uma viela – é marcada pela coragem e persistência de seus moradores.
Com apenas três ruas e uma viela, bairro localizado no extremo-sul de Londrina agora se perde no meio dos vizinhos. Segundo historiador da Câmara de Vereadores, nome surgiu por causa de três marcos que definiam e dividiam três lotes de terras na região
Vizinho do trevo da avenida Dez de Dezembro (Via Expressa) com a rodovia Celso Garcia Cid (PR-445), na saída para Curitiba, o Três Marcos foi sinônimo de desbravamento e crescimento da cidade.
Ninguém sabe ao certo de onde e como surgiu o nome Três Marcos. Porém, os moradores mais brincalhões usam a imaginação: dizem que foram três irmãos, chamados Marcos, que deram o sugestivo nome. Outros se referem a uma marca de café da época. Já o pesquisador histórico da Câmara de Vereadores de Londrina, Alcides Miranda, diz que o nome surgiu por causa de três marcos que definiam e dividiam três lotes na área onde surgiu o bairro. ‘‘Naquela época os terrenos eram sinalizados com marcos’’, diz o pesquisador.
Longe das controvérsias, o Três Marcos foi, na realidade, um dos primeiros bairros a ser criado na região sul de Londrina. Esse pioneirismo fez trazer inúmeras dificuldades aos moradores, fazendo as pessoas relutarem muito antes de se aventurarem a estabelecer uma residência no local.
Os que resistiram guardam na memória os passos do desenvolvimento. ‘‘Era café de um lado, boi do outro e mato à vontade’’, diz Antônio Lopes dos Anjos, de 69 anos, o primeiro ‘‘corajoso’’ do Três Marcos. Junto com a esposa, dona Malvina da Silva dos Anjos, seu Antônio largou a casa alugada na Vila Casoni para ter a sua própria no Três Marcos em 1967.
‘‘Ganhamos a casa no segundo sorteio da Cohapar. Não dava para deixar essa chance escapar’’, justifica o casal. Com 20 casas construídas pela Companhia Paranaense de Habitação (Cohapar) o bairro tomou forma. Mesmo com o teto, que abrigava da água da chuva e do sol forte, as dificuldades eram grandes para os ‘‘desbravadores’’. Não havia água, luz, muito menos asfalto.
‘‘No começo tínhamos que pegar água, todos os dias, de uma caixa d‘água, dessas de mil litros que ficava na rua’’, lembra seu Antônio. A água que abastecia a caixa d‘água provinha do poço artesiano instalado no 5º Batalhão da Polícia Militar, vizinho do bairro. A necessidade levava dona Malvina a usar da esperteza para pegar a água. ‘‘De madrugada eu acordava e ia junto com meus filhos pegar água para encher a nossa caixa. Assim eu não enfrentava a fila no outro dia’’, conta com ar maroto. Todo o trabalho não demorava mais que alguns minutos, graças aos 15 filhos. ‘‘Do mesmo jeito que eles ajudavam a encher a caixa, também a esvaziavam rapidamente’’, brinca seu Antônio.
Quando a noite chegava, as dificuldades aumentavam no Três Marcos. Isolado do mundo e sem energia elétrica, a única luz que guiava os moradores era a das velas. ‘‘Meus filhos ficavam com medo e pediam para ir embora dali constatemente. Mesmo assim, persisti e fiquei’’, relembra seu Antônio.
A distância do centro da cidade também era outro agravante. Sem ter uma linha de ônibus que atendesse o Três Marcos, o único meio de transporte, fora os pés, eram as bicicletas. ‘‘Acordava às 5 horas para chegar às sete no trabalho, em um armazém de café, perto do Moinho’’, recorda seu Antônio.
Fora a ligação com o centro da cidade, a única saída do Três Marcos era uma estrada de terra para Tamarana.‘‘Aqui era o fim do caminho’’.
‘‘Muita gente desistiu de ficar. Foram embora reclamando das péssimas condições de vida’’, revela dona Malvina. Das lembranças boas, dona Malvina recorda-se do vizinho fazendeiro que vendia leite, tirado da própria vaca, para os moradores. ‘‘Todos os dias, os vidros ficavam enfileirados na frente de casa. Ninguém pegava o do outro e quem não tinha dinheiro não precisava pagar.’’
Em 1968, uma nova leva de casas de madeira foi construída no bairro, fazendo o Três Marcos crescer.‘‘As casas foram construídas pelo padre capuchinho Fenereu, para abrigar as famílias excedentes da Vila da Fraternidade’’, diz um dos ‘‘beneficiados’’, Gentil Aguiar, de 68 anos, que mora no bairro há 31 anos. Todas as casas, cerca de 20, ainda hoje permanecem com a mesma aparência. As coisas começaram a mudar quase três anos depois.
O aumento da população trouxe água e luz ao bairro. ‘‘Quando ligaram a luz, a primeira coisa que compramos foi uma TV’’, diz dona Malvina. O transporte também chegou ao local, com a linha ‘Cativa-Três Marcos’. Nessa época, o bairro começava a ser conhecido e divulgado em toda a cidade.
Outra novidade no Três Marcos foi a construção da Escola Municipal Dalva Fahl Boaventura, também em 1968. A procura foi tão grande que, dois anos depois a escola teve que ser ampliada. Recentemente, uma reforma e um novo prédio foram feitos na escola. ‘‘Isso aqui enche de criança’’, alegra-se dona Malvina, mostrando a porta da sua venda, que comercializa doces e balas na saída do colégio.
Aproveitando o crescimento da cidade, novos bairros apareceram. Com isso, o veterano Três Marcos acabou sendo ‘‘esmagado’’ pelos vizinhos. Hoje, não é mais nome de linha de ônibus e muito menos referência. Esquecido, sendo muitas vezes confundido com o Conjunto das Flores, o Três Marcos é unicamente valorizado pelo seus moradores.
‘‘Valeu a pena ficar. Hoje nós temos tudo aqui’’, diz seu Antônio, mostrando a casa que foi ampliada dos antigos 42 metros quadrados para os atuais 150 metros quadrados. Sobre o que o Três Marcos tem de melhor, o ‘‘desbravador’’ é direto: ‘‘A proximidade do Batalhão da Polícia não traz ladrões para cᒒ.
Uma das características do bairro é a Rua Dois, que mais parece uma viela, ou ‘‘rua apertada’’, como as pessoas de lá preferem chamar. Inusitada, diferencia visualmente o Três Marcos.
Seu Gentil também faz referências ao bairro.‘‘Não tem um lugar em Londrina que tem o mesmo sossego daqui’’, diz o morador cativo apontando para as crianças brincando na rua.
As críticas ficam por conta do ‘‘esquecimento total’’ que o bairro merece das autoridades.‘‘A praça está largada e as ruas estão sujas demais. Faltava um pouco mais de atenção’’, reclama Gentil.

TRÊS MARCOS
Onde fica: extremo-sul de Londrina
Origem do nome: segundo historiador da Câmara de Vereadores, marcos definiam e dividiam três lotes
Número de casas originais: 20
Quantidade de ruas: três ruas e uma viela

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