A violência não tem poupado nem as crianças. Sequestro, assalto, acidentes de trânsito e homicídios têm atingido todas as idades. Como os pequenos lidam com isso? Será possível avaliar o trauma que essas experiências causam? De acordo com Mari Nilza Ferrari Bastos, psicóloga social e pesquisadora na área de violência, experiências desse tipo sempre vão produzir um determinado trauma.
''Quanto maior a idade mais difícil é para a pessoa lidar com isso, porque ela já tem um desenvolvimento avançado do ponto de vista cognitivo. A memória está muito relacionada com o desenvolvimento da linguagem. Quanto mais desenvolvida a linguagem, mais recursos a pessoa tem para armazenar (os acontecimentos)'', explica Mari.
Segundo a especialista, há a memória curta e a memória longa. Na curta são armazenadas algumas informações que depois são dispensadas para ir colocando outras. ''Em alguns casos os acontecimentos que estão na memória curta vão para a memória longa. Uma criança de dois anos está iniciando o desenvolvimento da linguagem, ela dispõe de poucos recursos para não só aprender, mas para dar sentido ao que está acontecendo com ela. É muito difícil alguém lembrar de acontecimentos ligados aos 2, 3 anos de idade. Muitas coisas vão acontecendo depois e junto com a aquisição da linguagem'', detalha.
Mari destaca que o modo como os adultos lidam com esses acontecimentos junto à criança ou adolescente também irão afetar o modo como eles vão lidar com a situação. ''Um adolescente de 16 anos tem uma grande capacidade de aprender e de interpretar. O que será oferecido para ele depois disso irá determinar o modo como ele vai lidar com esses traumas.''
''O que sabemos é que a pessoa precisa ter uma orientação psicológica para aprender a lidar com isso. Tem o momento em que o indivíduo precisa viver o luto, é importante chorar, falar do acontecimento, de como está sendo difícil e quanto mais se tem oportunidade de falar mais irá desenvolver a capacidade de interpretar e de lidar com aquela perda.''
Registro
O tratamento a ser oferecido para crianças e adolescentes dependerá da idade. ''O adolescente precisa de orientação psicológica, precisa ter oportunidade de falar e de compreender porque aquilo aconteceu, pois muitas vezes o trauma resulta em sentimento de culpa. Isso é muito verdadeiro em casos de violência sexual, quando o agressor primeiro seduz com doces, brinquedos, roupas, elogios. Depois quando a vítima começa a elaborar o que aconteceu, se sente culpada porque permitiu'', explica Mari.
De acordo com ela, uma criança de dois anos não vai compreender exatamente o que aconteceu e irá registrar os fatos mais em razão do que os adultos vão fazer, o que vão falar e como vão lidar com os acontecimentos. A criança não vai ter ideia do tamanho da violência que foi cometida e dificilmente vai se lembrar do fato, mas o significado que isso vai ter para ela dependerá do convívio social.
Justamente por esse motivo, a recomendação é que o atendimento psicológico inicialmente seja para a família, que irá receber orientação de como lidar com a situação e com a criança de forma adequada.
Mari explica que no sistema público esse atendimento é feito pelos Centros de Atenção Psicossocial (Caps), que têm profissionais especializados e capacitados para dar a melhor orientação para a família. ''Você precisa conhecer a rotina da família, os hábitos, regras e valores, porque a orientação tem que respeitar essa história pregressa que o grupo familiar carrega. A família também tem que ter a oportunidade de conversar com os profissionais e contar as dificuldades que está enfrentando para ficar habilitada para lidar com essas dificuldades e então estar preparada para trabalhar bem com a criança'', reitera.
A criança que não receber tratamento pode desenvolver algum trauma. ''Ela pode desenvolver o ressentimento, que é o pior sentimento que existe. Uma pessoa ressentida está sempre reagindo, não inicia algo, ela está sempre preparada para buscar uma recompensa por algo que ela se acredita credora. Ela vai cobrar e do pior jeito. Há pessoas que são movidas por vingança, que vem do ressentimento. Todos temos que estar preparados para lidar com as coisas ruins que acontecem'', alerta a psicóloga.

mockup