Londrina

Marcos BorgesJogo truncadoSem o ‘tapete verde’, criançada ainda tenta bater uma bolinha, por puro amor ao esporte. Mas o campo, antesum convite ao toque de bola, hoje só permite esquemas de futebol-força, literalmente aos trancos e barrancosAcabou a graça. O campinho de futebol, única diversão dos moradores do bairro dos Grilos, distrito de Irerê, zona sul de Londrina, foi inteiramente roçado pelo atual proprietário da área, João Batista da Silva. Onde havia o ‘‘tapete’’ (como os boleiros do lugar chamavam a grama bem cuidada), sobraram apenas terra roxa e buracos, muitos buracos, depois da visita do trator. Futebol, a partir de agora, só aos trancos e barrancos. Literalmente.
Os moradores contam que o campinho existe há mais de 20 anos e sempre foi a diversão do local. Tanto que a Prefeitura instalou traves, puxou água e até construiu vestiários. O time do bairro, Grilos Futebol Clube, chegou a ficar conhecido nas redondezas pelos bons resultados e tinha até placa na frente do gramado. Sem contar a função educativa: os alunos da escola municipal Cornélio Lima, que funciona ao lado, utilizavam o espaço para as aulas de Educação Física.
Contra-ataqueIntegrantes do Grilos Futebol Clube não se conformam com a destruição do gramado e o apito final dado peloproprietário do sítio. Os boleiros improvisam cartazes com a reivindicação: ‘Queremos o campo de volta’
Liovalter Pichole, morador do bairro dos Grilos e um dos ‘‘órfãos’’ da bola, conta que até o ano passado ele era o arrendatário do sítio onde está o campo de futebol. Até que o antigo dono resolveu vender a propriedade, por motivos de saúde. Na época, diz Liovalter, o novo dono se comprometeu a não mexer no campinho desde que ele só servisse de diversão para a turma do bairro. Ou seja: não poderia mais vir times de fora para jogar no local. O novo dono tinha medo que o movimento de boleiros de outras regiões estragassem a plantação.
Trato feito, o campinho só era usado pela turma do bairro. Disputas, a partir de então, só na casa do adversário. Mas eis que a felicidade de todos acabou num domingo ensolarado, quando todos já pensavam em preparar as chuteiras para mais uma pelada. O trator agiu sorrateiro, durante à noite, e estragou a festa. ‘‘Ele fez isso a noitinha, no sábado, sem falar nada. Não deu satisfação para ninguém’’, diz, indignado, Livan Pichole, irmão de Liovalter e irmão também do professor da escola local, Lício Pichole.
Os moradores do bairro fizeram um abaixo assinado, com cerca de 60 nomes, e encaminharam até a Câmara dos Vereadores de Londrina, através do vereador Renato Araújo, na esperança de alguma providência seja tomada. Enquanto isso, futebol só nos sítios e distritos da região, como o próprio Irerê, Maravilha, Tamarana, Usina Três Bocas e outros. ‘‘Aqui perto não tem nenhum campo, só esse. E agora está todo estragado’’, aponta desanimado Sebastião Antunes, também morador e boleiro do bairro.
Segundo Liovalter, a intenção é recuperar o campo de qualquer maneira, já que a turma o utilizava praticamente todo dia, depois da colheita, para se distrair e desfazer da tensão. ‘‘Mas, agora que ele quebrou o acordo, é que nós vamos arrumar time de fora para trazer aqui, depois de arrumar o campo. Se ninguém fazer nada a gente faz. Não vamos perder assim não.’
Já o proprietário do sítio diz que não tem acordo e o jogo vai ser duro. ‘‘Aquele campo faz cinco anos que estava abandonado, sem time. O vestiário está uma vergonha. Lá só tinha peladinha’’, critica João Batista da Silva. Segundo ele, quando comprou o sítio, há um ano, o pessoal realmente se prontificou a não levar gente de fora para jogar lá. Por isso, permitiu que aquela área fosse utilizada para lazer. Até que, no mês passado, ficou sabendo - ‘‘por comentários’’ - que havia sido tratado um jogo com time da região.
‘‘Quando tinha time lá dava o maior prejuízo para os proprietários. Eles (jogadores) vinham e levavam frutas, o que tivesse’’, argumenta Batista, sobre a decisão de acabar com o campo. Ele acrescenta ainda que o pessoal que está reclamando - ‘‘são uns três irmãos e os filhos deles’’ - não é dono de terras na região, só arrendatário. ‘‘Tenho meus direitos, a propriedade é minha. Não pretendo mais fazer campo de futebol lᒒ, sentencia. O proprietário diz ainda que não entende a razão de o pessoal não ter comprado o sítio na época em que foi colocado a venda, ‘‘já que o campo é tão importante’’.
Sobre o abaixo-assinado organizado pelos moradores, pedindo a reativação do campo, João Batista comenta que tem muito nome no documento que não é do bairro. ‘‘Recolheram assinatura de 20 quilômetros de roda ali. Gente que não tem nada a ver com o bairro’’, garante. Por isso, ele pretende, se preciso, acionar o próprio advogado para que seus direitos sejam garantidos.
E qual vai ser, afinal, o destino do campinho de futebol? ‘‘Para mim aquela área, do jeito que estava, não tinha utilidade nenhuma. Por isso vou plantar verdura ali, para tirar o meu sustento.’

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