Edson Guitti‘‘A vida continua’’Marco dentro de carro ao sair de hospital: dentadas, perna amputada e 29 dias de internação em UTI.Depois de passar 29 dias numa UTI, 10 dos quais inconsciente, o tratador de cães Marco Aurélio da Silva, 19 anos, teve alta ontem do Hospital Santa Rita, de Maringá. Na quinta-feira à noite ele foi transferido da UTI para um quarto, onde ficou até a manhã de ontem, quando foi levado para casa, no bairro Jardim Industrial, pelo pai dele, Pedro Marcelino da Silva.
Marco trabalhava há dez meses no canil Freedog, que fica perto de sua casa. Há 30 dias, foi mordido por um casal de cães da raça Mastin Napolitano. Uma infecção provocada pelas mordidas obrigou os médicos a amputar sua perna esquerda.
O delegado-chefe do 2º Distrito Policial, Benedito Valério Gonçalves, que preside o inquérito aberto para apurar as responsabilidades pelo ataque dos cães ao tratador, entrou há 15 dias na Justiça com um pedido inédito na região de Maringá. Ele quer sacrificar os animais, responsáveis pela morte do próprio dono, o bicheiro Mário Tamia, ocorrida em dezembro, em Apucarana. O pedido do delegado será julgado na próxima semana pela 2ª Vara Criminal de Maringá.
Ontem, antes de deixar o hospital, Marco afirmou concordar com o delegado. ‘‘Esses cães se tornaram assassinos, já conheceram o gosto do sangue. Por isso são muito perigosos e devem ser sacrificados’’.
Marco estava feliz por deixar o hospital. ‘‘Não estou deprimido e nem fiquei com raiva de ninguém. Minha reação, quando dei conta da perda da perna, há 15 dias, na UTI, foi normal. A vida continua. Vou esperar a minha recuperação, ganhar os oito quilos que perdi (ele tem 64 quilos) e bola pra frente. Me trataram muito bem no hospital, a comida é ótima e as enfermeiras e os médicos muito legais’’.
Marco não fez críticas aos proprietários do canil. Ele trabalhava sem nenhuma garantia trabalhista. A carteira de trabalho dele não estava assinada e, no momento do ataque dos cães, ele trajava bermuda e camiseta. O pai dele garantiu que vai entrar com uma ação indenizatória na Justiça do Trabalho. Marco contou que estava aprendendo a adestrar os cães e que no dia em que levou as mordidas havia somente uma funcionária no canil com ele. ‘‘Era o segundo dia de trabalho da Andréia. Ela foi levar comida para uns cães e eu entrei na jaula dos Mastins para lavá-la. Quando cheguei no fundo da jaula, o macho me atacou. A fêmea veio depois. A Andréia viu e foi buscar ajuda. Os cães eram muito fortes e na hora fiquei sem ação.’’
Marco terá que andar com auxílio de uma muleta, que seu pai conseguiu emprestada de um amigo. Pedro Marcelino é mestre de obras e agora vai tentar arrumar um trabalho que não exija muito do filho. ‘‘Meu sonho agora é trabalhar com computadores. Já sei um pouco do serviço, mas vou aprender mais. No futuro, quero ter uma perna mecânica. Saudade mesmo estou da namorada, com quem briguei pouco antes de ser mordido, e do futebol.’’

mockup