Transplantes esbarram em dificuldades
Arquivo FolhaMarlene De Lazzari, com fígado novo: ‘‘Sei que devo muito à família do doador, mas acho que a lei me ajudou’’Entre a morte
encefálica e a
remoção dos órgãos,
só sobra uma hora
Hoje, 50 a 60% das
carteiras de
identidade apontam
doadores em Curitiba
Israel Reinstein
Passados seis meses da vigência da lei de transplantes, as dificuldades na realização de transplantes não são mais quanto ao número de doadores, nem na compreensão do processo pelas famílias dos prováveis doadores. Hoje, o problema concentra-se na remoção e transporte dos órgãos. ‘‘A nova lei não mexeu no gargalo onde emperra a doação de órgãos no Brasil’’, diz a coordenadora da Central de Transplante do Estado, Cristina Von Glehn. Até maio, a Central registrou 85 notificações de potenciais doadores e 61 casos de retiradas de órgãos - números pouco superiores à média mensal dos últimos dois anos, mesmo com o crescimento de doadores. Hoje, entre 50 a 60% das quase mil carteiras de identidade emitidas mensalmente em Curitiba apontam doadores. No ano passado, esse índice era de 40%.
Entre as dificuldades, a coordenadora cita a falta de estrutura dos hospitais para fazer a manutenção do doador até o momento da retirada dos órgãos e a demora no processo de documentação da morte encefálica. ‘‘Muitas vezes os órgãos não podem ser aproveitados porque há falhas neste processo, e não porque não existe um doador’’, afirma Cristina Von Glehn.
Além disso, com a criação da lista única de transplantes, a distribuição que ficava dentro do hospital ganhou outra prioridade. ‘‘Os hospitais não puderam apenas repassar o excedente de órgãos, que não foram usados para transplantes em seus pacientes, tendo que mudar o esquema de remoção e transporte’’, comenta Cristina.
As dificuldades na identificação da morte encefálica e na remoção acontecem de duas formas. Primeiro porque nem todos os hospitais possuem intensivistas para identificar a morte cerebral. Depois, a falta de equipamentos disponíveis para manter vivos e mortos não são suficientes. ‘‘Na emergência, a escolha sempre recai sobre a vida’’, diz Cristina.
Depois da morte encefálica, os profissionais só têm uma hora para remover os órgãos. Por isso, o intensivista deve ficar atento aos pacientes que estão em UTIs e pronto-socorros. Depois, é necessário criar condições para a manutenção clínica do doador. ‘‘Pode ser que não haja equipamentos para colocar um cadáver na UTI’’, diz.
Neste ponto, é necessário que se ateste a morte encefálica. É realizada uma bateria de exames, entre eles teste de apnéia e eletroencefalograma. Esses exames, bem como a pessoa, são examinados por três médicos, um deles neurocirurgião. Em média, leva-se de 30 a 40 minutos para saber o resultado. Após isso, os médicos abordam a família. ‘‘A família é abordada mesmo quando nada consta na carteira de identidade. Não sabemos se a pessoa realmente é doadora ou se não teve tempo ou dinheiro para mudar a carteira’’, explica.
Esta prática é uma norma obrigatória no Paraná, por causa de uma determinação da Secretaria de Estado de Saúde e do Conselho Regional de Medicina. Até maio, foram realizados 65 transplantes - dez de fígado, quatro de coração, 13 de válvulas cardíacas, dois de cartilagem e de tecido ósseo e 30 de rins.
A dona de casa Marlene Mello De Lazzari, de 61 anos, foi a primeira pessoa a receber um fígado no Paraná com a nova lei de transplantes. Por causa de cirrose, a dona de casa era considerada uma paciente em estado grave e aguardava um transplante há mais de seis meses, no Hospital de Clínicas. ‘‘Sei que devo muito à família do doador, mas acho que a lei também me ajudou’’, diz.

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