TRANSPLANTES - Um trabalho para salvar vidas
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quarta-feira, 02 de janeiro de 2013
Lucio Flávio Cruz <br>Reportagem Local 
''O nosso trabalho aqui não é de convencimento, mas de mostrar para a família que ainda há uma outra alternativa e que isso pode salvar uma vida.'' A declaração é da psicóloga Miriam Tomy Tabuo, que faz parte da Comissão Intra-hospitalar de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplantes (Cihdott) da Santa Casa de Londrina.
A Comissão foi instalada em 2009 e tem a difícil missão de acolher as famílias no momento mais difícil da vida de um ser humano: a morte de um ente querido. Mas a missão é para um bem maior: salvar a vida de quem aguarda na fila a espera de um órgão novo e sadio. ''Não existe felicidade maior no mundo que ver a alegria de quem recebeu a chance para uma vida nova'', ressalta a enfermeira Erika dos Santos Bezerra.
A Cihdott conta hoje com oito enfermeiros, um médico e três psicólogos específicos para fazer o trabalho junto as famílias de pacientes internados na Santa Casa, Mater Dei e Hospital Infantil.
Segundo a enfermeira, após a instalação da Comissão aumentou bastante o número de órgãos captados nos hospitais para doação. Mas chegar a este ponto não foi fácil. Os profissionais do hospital recebem treinamento e capacitação contínuos. ''A morte também é difícil para o profissional de saúde. Ele foi treinado para dar vida e evitar a morte'', explica a enfermeira.
''Todas as áreas do hospital precisam estar preparadas, desde a recepção até o pessoal da limpeza. O acolhimento que a família recebe quando chega no hospital vai ser determinante na hora de decidir pela doação ou não'', acrescenta.
Duas situações permitem a doação de órgãos: quando há morte encefálica ou parada cardíaca. Com morte encefálica é possível subtrair vários órgãos como coração, fígado, pâncreas, rins e outros. Da parada cardíaca é possível usar apenas tecidos como o globo ocular, córnea, ossos e a válvula cardíaca.
A morte encefálica é quando o paciente não tem mais atividade cerebral e o quadro é irreversível. O coração continua batendo apenas com o auxílio de aparelhos e medicamentos. ''Todo mundo entende por morte quando o coração para de bater, por isso as famílias demoram para entender esta situação. A morte encefálica é mais angustiante e difícil para todos'', explica a psicóloga.
Quando o paciente começa a apresentar os primeiros sinais de morte encefálica, a equipe inicia o trabalho de abordagem à família. São feitos vários protocolos e entrevistas com os familiares para que todas as dúvidas sejam esclarecidas. ''Se houver qualquer sinal de recuperação cerebral, a abordagem à família é suspensa imediatamente'', frisa Miriam Tomy.
Na parada cardíaca, o trabalho precisa ser rápido pois as mortes são repentinas e normalmente o atendimento é feito nos prontos-socorros. A dificuldade maior é não conhecer a família da vítima e por isso a paciência é o grande aliado. ''Como a notícia é repentina as famílias chegam desesperadas e é preciso esperar o momento certo e a angústia passar para abordar o assunto. Tem que saber a hora certa que a pessoa está pronta para te ouvir'', ressalta Érika Bezerra.
A definição final pela doação ou não é sempre da família. E precisa ser unânime. ''Quem tem a palavra final é o cônjuge, mas aqui se algum integrante da família for contrário descartamos a doação'', explica a psicóloga. Por isso o diálogo deste assunto em família é fundamental e facilitador. Na Comissão, a decisão do paciente que for a óbito será sempre a definitiva.
''Já tivemos situações em que a família era contrária, mas o paciente havia expressado sua vontade de ser doador e casos que foram inversos também. Por isso informar a família ajuda muito'', esclarece Miriam.
O número de doadores de órgãos no Brasil tem crescido, mas as campanhas de divulgação são tímidas e esporádicas, além de pouco esclarecedoras. ''A situação melhorou, mas ainda temos um longo caminho a percorrer. As pessoas ainda têm muita dificuldade para lidar com a morte'', relata a enfermeira Érika Bezerra. ''Tivemos uma paciente que foi para uma cirurgia e viu um cartaz sobre doação na porta do centro cirúrgico e decidiu ser doadora. A divulgação foi fator determinante na sua decisão.''
A Comissão Intra-hospitalar da Santa Casa comemora os bons resultados obtidos no ano. Desde maio, nenhuma família procurada pela Cihdott recusou a doação de órgãos. ''O trabalho deles é extremamente relevante. Repensamos nossa estratégia de atuação, mas se o hospital não fizer a sua parte não adianta. Eles são as grandes estrelas responsáveis por este desempenho'', elogia a enfermeira Ogle Beatriz Bacchi, coordenadora da Comissão de Procura de Órgãos e Tecidos para Transplantes (Copott), ligada a 17 Regional de Saúde de Londrina.

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