TRANSPLANTE DE RIM - Marco da Medicina completa 40 anos
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sexta-feira, 07 de junho de 2013
Lúcio Flávio Moura<br>Reportagem Local 
Segunda-feira parecerá menor que a grande maioria dos dias para o médico urologista Lauro Brandina, de 74 anos. Do despertar até o adormecer, o paulista que chegou a Londrina para passar três meses mas acabou ficando definitivamente (já são 42 anos), deverá enfrentar uma longa maratona pela frente. Uma maratona que não cansa ninguém, uma segunda-feira inteira de cumprimentos e homenagens, do mundo acadêmico, dos colegas e dos pacientes, e de quem mais conseguir entender a dimensão de uma das maiores façanhas da medicina pé-vermelho: o primeiro transplante de rim do Paraná, ocorrido no dia 10 de junho de 1973 no centro cirúrgico do Hospital Universitário, à época instalado no prédio da esquina das ruas Alagoas e Pernambuco, onde hoje funciona a Companhia Municipal de Habitação (Cohab).
Naquela manhã, em um procedimento que durou cerca de quatro horas, Londrina entrava no mapa da Medicina avançada, de onde nunca mais saiu. "Foi o trabalho de uma grande equipe. Todos, sem exceção, devem ser lembrados por este feito. Eu era apenas um dos 25", avisa. Entre os 25, há nomes de peso (ver quadro), inclusive dois ex-reitores da Universidade Estadual de Londrina (UEL), João Carlos Thomson (à frente da universidade entre 1990 a 1994) e Pedro Gordon (2001-2002).
O receptor do órgão era Egídio Ramazotti, um operário de uma fábrica de tijolos diagnosticado com insuficiência renal crônica. Tinha 26 anos e viveu por 34 anos com o rim do irmão, João, três anos mais velho e que na ocasião se deslocou de Rondônia para doar o órgão. Ramazotti morreu em 2007 em decorrência de um problema cardíaco, superando em nove anos a expectativa de sobrevida de um receptor.
A cirurgia foi um sucesso absoluto e provocou grande euforia na área médica do município, que tinha então menos da metade da população atual (cerca de 240 mil habitantes). Nos dias subsequentes, Brandina e Altair Jacob Mocelin, nefrologista que tratava de Ramazotti, se tornaram autênticos heróis da ciência e referências nacionais do procedimento. Seus nomes foram lembrados em discursos no Congresso Nacional.
Mocelin, pioneiro do curso de Medicina da UEL, escola onde lecionou por 40 anos, morreu em março deste ano em São Paulo aos 74 anos. Abastecido pela memória que conta o tanto que batalharam, o colega e amigo faz questão de homenageá-lo. "Foi um profissional de altíssimo gabarito que foi muito importante para que o transplante fosse realizado. Ele deve ser muito lembrado nesta data", afirma Brandina, que também não se cansa de frisar a contribuição decisiva do então reitor Ascêncio Garcia Lopes, que lutou pelos recursos públicos que transformaram o HU em uma unidade capaz de abrigar uma cirurgia de alta complexidade. O então diretor do hospital, Lucio Tedesco Marchesi, também foi um grande entusiasta da ousada ideia do transplante, ressalta Brandina.
Salvando vidas
O transplante foi tão bem sucedido no antigo HU que obrigou a dupla pegar a estrada para inaugurar a era dos transplantes renais em outros estados. Em outubro de 1973, eles participaram de outra cirurgia inédita no Paraná, o transplante com doador falecido, uma raridade até no eixo Rio-SP. Meses depois, Londrina também abrigou o primeiro transplantes em crianças. "Nos tornamos referência. Para cá, vieram inúmeras equipes de várias partes do Brasil para treinamento", lembra com orgulho o urologista. "Para a Medicina de Londrina foi um passo importante, confirmando o conceito da prática de uma Medicina de alto padrão, que era uma meta almejada e iniciada pelos primeiros médicos que se instalaram na nossa cidade".
A equipe de Brandina já realizou mais de 1,5 mil transplantes. A técnica não sofreu grande alteração, salvo o fato de que há uma década é feita de uma forma menos dolorosa, por videolaparoscopia. Graças aos pioneiros, a técnica foi se aperfeiçoando e hoje salva muitas vidas. O transplante deixou de ser notícia em Londrina há décadas. Entre 2003 e 2012, foram realizados 324 transplantes, o que dá uma média de uma cirurgia a cada 11 dias, de acordo com dados da Comissão de Procura de Órgãos e Tecidos para Transplantes (Copott). O número de beneficiados por este tipo de procedimento é crescente. No primeiro trimestre deste ano, foram feitos 67 transplantes renais no Paraná, contra 61 no mesmo período de 2012. A fila de espera na região de Londrina é de cerca 500 pacientes e no Paraná, de 1,8 mil.



