Evandro de Souza Vieira iria completar 20 anos no dia 29 de dezembro. Ele trabalhava na Celetel (empresa que presta serviços para a Telepar) e tocava violino e teclado na igreja que frequentava, no Jardim Bandeirantes, zona oeste de Londrina. Na última segunda-feira, recebeu um convite para uma festa de aniversário de uma amiga no Conjunto São Lourenço (zona sul).
No Fusca, que a família comprou para que Evandro pudesse trabalhar - estavam mais três pessoas: o primo Vaslei Viana Ramos, 15 anos, morador de Cornélio Procópio; Ricardo da Silva, 19 anos; e Carlos Correa Ricardo, 26 anos. A caminho do aniversário da amiga, na PR-445, em frente ao Iapar, a fatalidade: um choque contra uma caminhonete, que acabara de sair do Iapar, deixou o Fusca completamente destruído. Evandro morreu na hora; o primo, algumas horas depois. Os outros dois ocupantes ficaram feridos.
A morte de Evandro e Vaslei foi apenas um capítulo de uma semana trágica no trânsito de Londrina. De segunda-feira até ontem, seis pessoas morreram vítimas de acidentes nas ruas ou estradas do município. Uma média de quase uma morte por dia. A primeira vítima fatal foi Vanderlei Lopes Costa, 27 anos, que morreu segunda-feira no Hospital Universitário (HU). Dois dias antes, ele havia colidido a bicicleta que conduzia com um automóvel, na Estrada do Patrimônio São Luiz, próximo à Aviação Velha.
Outro acidente que marcou a semana aconteceu no Centro de Londrina, no domingo, nas esquinas das ruas Brasil com Pará. Um Fusca, onde estavam as irmãs Ana Luzia Barbosa Cordeiro, de 35 anos, e Rejane de Lima Barbosa, 32, foi atingido por um microônibus. Ana Luzia morreu na hora; Rejane, dois dias depois, no Hospital Evangélico. Parentes da vítima disseram que as irmãs saíram de casa para ir à igreja.
A última morte ocorreu na madrugada de quarta-feira, na Avenida Brasília (BR-369), próximo ao Ceasa. O comerciante César Aparecido Inoune, 28 anos, perdeu o controle do Escort, avançou pelo canteiro central e bateu de frente com um ônibus que vinha no sentido contrário. O carro partiu-se ao meio, depois de ser jogado contra um poste de iluminação, e o corpo de Inoune foi mutilado. No ônibus, 25 pessoas ficaram feridas, ninguém com gravidade.
Somente pelo levantamento da Companhia de Trânsito da Polícia Militar (PM), nos últimos 10 dias foram registrados 194 acidentes e 78 feridos. Durante este ano, até ontem de manhã, foram 5.461 acidentes, 2.132 feridos e 88 mortes (desconsiderando as mortes ocorridas nas rodovias, registradas pela Polícia Rodoviária). Comparado com todo o ano de 1997, os números aumentaram: ano passado ocorreram 5.931 acidentes, 2.146 feridos e 85 mortes.
Para o tenente Idevaldo de Paula Cunha, comandante em exercício da Companhia de Trânsito, a concentração de mortes em uma só semana foi coincidência. ‘‘Não é possível estabelecer relação entre estes acidentes’’, observa. Ele aponta que o número de acidentes permanece com média igual a do ano passado. O que aumentou, na verdade, foi a gravidade dos acidentes, causando mais mortes. ‘‘A principal causa tem sido a desatenção dos motoristas, que não respeitam placas ou semáforos. Pelo menos é o que tem acontecido em Londrina.
Outra dificuldade, na opinião do comandante, é que a vigência do novo Código de Trânsito ainda não mudou a mentalidade do motorista. ‘‘A educação funciona bem para as crianças. Mas quem já foi educado errado, a única forma eficaz é a fiscalização’’, diz. Por isso, tenente Cunha acredita que a partir do ano que vem, quando as multas aplicadas este ano tiverem que ser pagas, e os motoristas começarem a ter a carteira apreendida, as coisas poderão começar a melhorar em Londrina.
Mas para quem já perdeu pessoas queridas no trânsito de Londrina, as melhoras virão muito tarde. ‘‘Era um filho que nunca deu problemas e estava muito contente com este novo emprego. Era o primeiro serviço fixo dele e ele estava muito feliz’’, diz Nilza Marli de Souza Viana, 43 anos, mãe de Evandro de Souza Vieira. Ela conta que o filho sempre teve muito cuidado no trânsito e nunca gostou de andar de moto ou mesmo de bicicleta.
O Fusca, ele praticamente só usava para ir ao trabalho. ‘‘Era cuidadoso, não corria de jeito nenhum, parava nos sinais. Mas não sei o que aconteceu. Não dá para culpar nem um nem outro’’, aponta.
Sobre o trânsito de Londrina, dona Nilza comenta: ‘‘Está muito violento. As pessoas parecem que não têm amor à vida. É muita imprudência.’ Hoje deveria ser dia de festa para a família, com o casamento da única irmã de Evandro. A festa foi substituída por uma cerimônia mais simples, só entre as famílias dos noivos. ‘‘Tenho minha avó, com 93 anos de idade e que está inconformada, chora dia e noite. A minha mãe também. Então cancelamos tudo. Não tem como fazer mais nada.’

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