Trânsito exige recursos e criatividade
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domingo, 26 de março de 2006
Fábio Cavazotti<br> Reportagem Local 
O número de mortes no trânsito de Londrina caiu. O parâmetro adequado de comparação é o índice relativo a cada 10 mil veículos e, nesse quesito, temos avançado, afirma o diretor de Trânsito da CMTU, Álvaro Grotti Jr, em relação à matéria publicada ontem pela Folha de Londrina, mostrando aumento de mortes entre 2003 e 2005 de 65 para 74 vítimas. Os dados da Companhia de Trânsito da Polícia Militar (Ciatran) indicam também que as mortes por atropelamento tiveram um salto de 65% entre 2004 e 2005 de 20 para 33 vítimas fatais. Os pedestres já são o grupo que mais morre no trânsito de Londrina, com 45% do total.
Em abril do ano passado, a CMTU elaborou o Plano de Segurança no Trânsito, que previa uma série de ações para privilegiar a circulação de pedestres e respeito às faixas de segurança, e a redução dos acidentes e mortes em geral. Os principais projetos campanha de respeito ao pedestre; ampliação de 40 para 100 semáforos eletrônicos no centro; realização de melhorias em 10 pontos críticos; e instalação de 45 equipamentos eletrônicos de velocidade que ainda não foram implantados.
Em entrevista exclusiva à Folha, o diretor de trânsito da CMTU fez questão de citar uma série de ações não previstas no plano que estão sendo feitas pela administração municipal, com ajuda de recursos estaduais e federais. As mais importantes são a duplicação do pontilhão de acesso ao Jardim Leonor (Avenida Leste Oeste), a duplicação da avenida Harry Prochet, na zona sul, e a duplicação da Rua Goiás, entre a Avenida JK e Rua Michigan. Questionado sobre o critério que prioriza obras não citadas no Plano de Trânsito, ele diz que os pontos problemáticos não são apenas dez; posso fazer uma lista de 30.
O diretor de trânsito destaca que outro levantamento importante realizado pelo Ippul indica os 10 pontos com acidentes de maior gravidade. Nestes casos, já semaforizamos dois locais (cruzamento das ruas Acre e Amazonas, e da São Vicente com Belém). Outros cinco pontos ficam no trecho urbano da BR 369, que é de alçada estadual.
O prefeito Nedson Micheleti (PT) foi procurado pela reportagem para falar sobre os problemas do trânsito, mas declarou por meio da assessoria de imprensa que prefere não se manifestar.
A seguir, as principais declarações de Álvaro Grotti Jr.
Folha - O plano de trânsito previa uma série de ações para 2005, visando promover o respeito e atenção com os pedestres, mas elas ainda não saíram do papel. Foi por falta de dinheiro?
Grotti - Essa campanha já vinha sendo discutida desde 2003, e era para ser implantada no segundo semestre do ano passado. Realmente, nós atrasamos por falta de recursos. Apesar de não custar muito, não foi possível disponibilizar. Mas, eu acho que não é a falta de recursos que faz aumentar o número de mortes. Nesse caso, a gente entra na questão da educação: após 5 anos na CMTU cheguei à conclusão de que não precisamos educar ou conscientizar o motorista. Você vai pensar que estou louco, mas dê uma nota de R$ 100 para um cara que excede a velocidade e peça para ele rasgar. Veja se ele é inconsciente para rasgar; é claro que não. Então o cara tem consciência do que está fazendo. Quem tirou carteira já recebeu a educação no trânsito. Não há solução a curto e médio prazo para isso. Eu creio na educação, mas para as novas gerações. Por isso, temos em andamento o projeto Siga Bem, que é realizado nas escolas.
Folha - Se a campanha do pedestre fosse colocada em prática não poderia haver redução dos atropelamentos?
Grotti - Teoricamente poderia, mas não posso afirmar.
Folha - Outro item do plano de segurança previa a implantação de 60 novos semáforos eletrônicos, na região central, para melhorar o fluxo de veículos e a segurança dos pedestres. Por que não foram implantados?
Grotti - Estamos trabalhando isso para esse ano, mas não com orçamento da prefeitura porque ela não tem essa capacidade. Estamos correndo atrás de dinheiro do BNDES, mas prefiro não falar em prazo. Esse projeto foi formatado em 2003, mas foi bom não ter conseguido (a verba) lá atrás porque surgiram novas tecnologias que baratearam o custo do equipamento em 50%.
Folha - O plano previa ainda alterações viárias de pequeno e médio portes em dez cruzamentos críticos da cidade até hoje não foram realizadas. Também por falta de verba?
Grotti - Nós julgamos necessárias intervenções nesses pontos não só por causa dos acidentes, mas por questão viária mesmo. O primeiro ponto estamos começando agora, no cruzamento da Rua Heródoto com Rua Bélgica em frente à barragem do lago Igapó , dentro das melhorias previstas para a Avenida Harry Prochet. Isso já está em processo de licitação. Nós tínhamos um outro gargalo, na Avenida Leste-Oeste com Rio Branco, que precisamos semaforizar. Nós recebemos críticas por isso, mas o semáforo foi importante para proteger o pedestre. O cruzamento da Winston Churchil com Henrique Mansano, próximo ao Estádio do Café, ainda não começamos. Esse local é um caos, intransitável em dia de chuva, no final da tarde. Houve atraso porque a gente fez alguns projetos e depois verificamos que haveria necessidade de desapropriar um posto de gasolina. A gente está com dificuldade até de fazer a obra, quem dirá para indenizar.
Folha - A CMTU contratou uma empresa para avaliar a necessidade de instalação de controladores eletrônicos de velocidade e lombadas eletrônicas em toda a cidade. Qual o resultado?
Grotti - Ele foi terminado em setembro do ano passado. Concluímos que temos deficiências na ação do motorista. Não é educação, não é conscientização, é questão do comportamento. Nós temos muito excesso de velocidade. Seguramente, hoje, seria adequado ter 30 equipamentos de velocidade, monitorando duas faixas cada um, e 15 lombadas eletrônicas monitorando pontualmente travessias. O radar de velocidade faz o controle ao longo de uma via, e a lombada em um ponto isolado. Temos necessidades dos dois dispositivos principalmente na Avenida Tiradentes, Rua Bolívia, Rua Bahia, avenidas Castelo Branco, Arthur Thomas, Leste-Oeste, em dois pontos, Araguaia, e daí por diante.
Folha - Há expectativa de prazo para a implantação dos semáforos?
Grotti - Eu tenho uma prévia de custo, aproximadamente R$ 300 mil. Teríamos que locar, por R$ 8 mil a R$ 10 mil, cada um. Não fizemos por falta de dinheiro. Então, vou tentar fazer um edital que me dê fôlego, que eu pague o mínimo possível, e que dê carência. Este projeto foi para discussão jurídica, é um processo demorado.
Folha - Qual sua análise sobre a atuação da CMTU e Ippul no trânsito local, levando-se em conta a escalada das mortes por atropelamento, de ciclistas, e óbitos em geral, nos últimos anos?
Grotti - Primeiro, que a análise não pode ser feita em cima dos números puros, temos que trabalhar a estimativa para cada grupo de 10 mil veículos. Esta análise, indicada pelo Departamento Nacional de Trânsito (Denatran), mostra redução dos acidentes em Londrina. É satisfatório? Não é satisfatório? É questionável... Mas eu avalio que, apesar do número reduzido de quadros, nós temos excelentes funcionários no Ippul, que não perdem para técnicos de lugar nenhum. Temos excelentes projetos e grandes parcerias em Londrina. Isso tem dado resultado. Temos diminuído o número de acidentes em alguns locais em que agimos, não somente por educação, mas por punição. Por outro lado, precisamos melhorar muito na questão investimento e da execução. Nós sabemos o que tem que fazer, temos que investir.
Folha - O que você ouve da administração quando apresenta a necessidade de recursos para bancar os projetos planejados?
Grotti - Precisamos arrumar recursos. Vamos arrumar recursos e ser criativos para fazer com o que temos.


