Trânsito atropela código em Londrina
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sábado, 08 de agosto de 1998
Lúcio Horta 
Luciane Rodrigues tinha dois anos de idade. Começava a andar, falar, descobrir o mundo. Vivia rindo pelos quatro cantos da casa e adorava brincar com os irmãos. Também tinha um xodó: o gato da família, que não saia do colo da garota. Ultimamente, Luciane dera para imitar o gato, para alegria dos pais corujas.
Carlos Tirone, 47 anos, motorista da Transporte Coletivos Grande Londrina (TCGL) há uma década e meia, também gostava de brincar com a mulher e os filhos. Mas era considerado um homem sério. Nas horas de folga, não perdia tempo e trabalhava como pedreiro, para aumentar a renda familiar. Planejava comprar um automóvel este ano.
Os nomes de Luciane e Sebastião teriam poucas chances de figurar numa mesma lista, não fosse um triste detalhe: ambos foram vítimas do trânsito de Londrina no mês de junho. Como eles, outras 15 pessoas perderam a vida em acidentes no mesmo período. A última vítima morreu terça-feira da semana passada, depois de permanecer internada durante quase dois meses na Santa Casa de Londrina.
A situação não tem sido diferente em outros períodos do ano. Em maio, por exemplo, ocorreram 516 acidentes, com 213 feridos e 14 vítimas fatais. Somando-se os dois meses (maio e junho), são mais de uma morte a cada dois dias. Em julho, os índices se mantiveram: 516 acidentes, com 185 feridos e 13 mortos - considerando a morte do tratorista Luís Ferreira da Silva, 42 anos, que morreu dia 31 atropelado por uma motoniveladora quando trabalhava em obras na zona norte da Cidade.
Mas o que faz o trânsito de Londrina ser tão violento? Aqui - ao contrário do que tem propagado o Governo Federal sobre restante do País -, o novo Código de Trânsito não serviu para reduzir o número de mortes em acidentes. As únicas exceções foram os meses de fevereiro e março, com uma e duas mortes respectivamente. Fenômeno justificado provavelmente pelo barulho da entrada da nova lei. Depois, os índices voltaram aos patamares de tempos anteriores.
Para o comandante da Companhia de Trânsito de Londrina, capitão Sérgio Dalbem, o problema maior ainda está nos próprios usuários de vias públicas, ou seja, motoristas e pedestres. Ele afirma que, se forem observados os croquis de acidentes que aconteceram em Londrina nos últimos meses, a maioria ocorreu em ruas perfeitamente sinalizadas. Então falta atenção aos motoristas. Às vezes o sujeito pára numa preferencial, não olha direito e toca o veículo, achando que dá para passar. Outro vem rápido e acontece o acidente.
Capitão Dalbem acredita que somente uma conscientização maior por parte dos motoristas pode reverter o quadro. Ele recorda que no mês de fevereiro, logo após a vigência do novo Código, ocorreram 289 acidentes na Cidade, contra quase 500 em igual período no ano anterior. Os motoristas estavam mais atentos. Depois houve um relaxamento, lamenta o capitão.
Outra dificuldade apontada pelo comandante da Companhia de Trânsito é a tramitação das multas. Depois de multado, há posssibilidade de recurso e o motorista só vai colocar a mão no bolso no momento do licenciamento do veículo, às vezes meses depois. Daí a sensação de impunidade. É preciso haver uma mudança de comportamento.
O diretor-presidente do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Londrina (Ippul), Mário Stamm Júnior, concorda com o comandante da Companhia de Trânsito e aponta motorista e pedestre como os principais causadores de acidentes. O desrespeito à sinalização, a desatenção e a alta velocidade são apontados por ele como os piores inimigos do trânsito em Londrina.
Quando desrespeita a sinalização ou dirige em velocidade alta, o motorista está negligenciando inclusive os princípios básicos da direção defensiva, argumenta Stamm. Para ele, o melhor remédio para mudar o quadro é a implantação de um sistema eficiente de controle de velocidade, através de sensores, aliado a uma ampla campanha de educação. De preferência utilizando o próprio motorista como agente educador. Também queremos reforçar a sinalização. A nossa meta é que em doze meses Londrina seja uma das cidades mais bem sinalizadas do Brasil. Essa é uma prioridade nossa, destaca o presidente do Ippul.


